De amor e Trevas, Amós Oz

Resenha crítica
Oz, Amós, “De Amor e Trevas”, Companhia das Letras, 2005.
Wesley Corrêa
Aluno do 3º ano de Graduação do Curso de História da UNIFESP
Resenha realizada como parte da avaliação da UC Eletiva “De amor e trevas: modernidades, terrorismos e utopias” ministrada pela Profa. Dra. Ana Lúcia L. Nemi e pelo Prof. Dr. Rafael Ruiz do curso de história da Universidade Federal de São Paulo.

“Lá todos os sonhos irão se materializar
Lá iremos viver e criar
Uma vida pura e uma vida livre”.(1)

“O verdureiro disse:
‘Eu não invejo esses árabes. Há judeus lá nos Estados Unidos.
Daqui a pouco eles vão mandar umas bombas atômicas para nós”.(2)

1. Introdução

A presente avaliação pretende uma resenha crítica da obra De amor e Trevas de Amós Oz. A reflexão pretende ir a fundo ao conteúdo intelectual já acarretado no curso e, dessa forma, dispensar a utilização de bibliografia que se refira à obra – não dispensando texto de apoio. Essa análise não englobará toda a obra de Oz – por motivos metodológicos seguiremos até a página 429.
Os temas para abranger a análise da obra nos aparecem mais como problemas a serem pensados. Primeiramente selecionamos o crescimento do sentimento nacionalista tanto judeu quanto árabe, englobando assim as diversas formas de deslegitimação e contestação do poder. No caso presente a contestação que nos interessa se dá através do terrorismo, seja o empreendido pelos judeus contra os britânicos, seja o posterior empreendido pelos árabes contra o Estado de Israel. Pensando que 1948, a data limite da análise, foi um período pós-genocídio nazista e momento do reconhecimento da legitimidade dos judeus pela Organização das Nações Unidas (ONU), através da criação de dois Estados independentes no território palestino.
Num segundo momento pretendemos refletir acerca dos Estados Unidos frente aos fatos. Ou seja, o que representa a sensibilização dos Estados Unidos frente à causa judaica e o que isso pôde representar para os árabes da Palestina naquele momento e até hoje.

2. Resenha

Amós Oz, nascido em Jerusalém em 1939 é atualmente um dos mais conhecidos autores de Israel. Figura unânime devido à condição de romancista de renome internacional e ativista político. Atualmente leciona literatura hebraica na Universidade Ben Gurion.
Sua obra De amor e Trevas é de teor autobiográfico que vai das origens de sua família na Rússia e na Ucrânia do século XIX até a sua vida no Kibutz Hulda – onde se torna um “pioneiro socialista” sem a aprovação da família “revisionista” de seu pai(3) – e a independência de Israel. Mas não há nada de linear nas crônicas de Oz, o autor oscila entre o presente e o passado demonstrando nas entrelinhas as diversas nuanças políticas e sociais que vivera em Jerusalém.
O início da obra já é indício de seu brado de realidade do romance. De revolta contra o mandato britânico ou da utopia da construção de um estado judaico. Ainda criança Oz suspeitava que suas plantas morriam porque o governo britânico colocava cloro na água; projetava foguetes com os amigos para atingir Londres e apedrejava as construções da rua King George – segundo ele uma extensão de Londres em Jerusalém.(4) E percebia que

Lá no mundo, os muros estavam todos cobertos de frases hostis: ‘Judeu, vá para a Palestina’. Muito bem, viemos para a Palestina, e agora o mundo inteiro grita: ‘Judeu, saia da Palestina… dois mil anos se passaram antes que pudéssemos pisar em Jerusalém de novo, então não vamos abrir mão desse direito assim sem mais nem menos.(5)
Uma simples ligação para os parentes em Tel Aviv era indício do quanto era difícil expressar os sentimentos naqueles momentos, de que a vida pendia por um fio, afinal os árabes podiam aparecer a qualquer momento. Nesse sentido, Oz parece justificar seu intuito indicando que não existe história que não seja confessional. Tentando inculcar a idéia de que só o mau leitor procura na obra “o que realmente aconteceu”, ou a “história que há por trás da história”.(6)

Quem procura a essência de um conto no espaço que fica entre a obra e o seu autor comete um erro: é muito melhor procurar não no terreno que fica entre o escritor e sua obra, mas justamente no terreno que fica entre o texto e seu leitor.(7)

O que é latente e dá o teor da obra o tempo todo é o futuro. O futuro do povo judaico, a criação do Estado de Israel independente. A hostilidade crescente dos judeus contra os britânicos, que pareciam aliados aos árabes, e destes contra os judeus. Do mundo aliado aos árabes interessados nos mercados, no petróleo e outros interesses enquanto reprimiam os judeus por serem “espertos, perspicazes e bem-sucedidos” embora “barulhentos e intrometidos”. Um sentimento que remonta ao histórico de sua família.
O avô paterno, Aleksander Klausner, já era um poeta que fazia apologia a Vladimir Jabotinsky98) ou ao seu irmão Yossef Klausner.(9) Além de poemas contra os inimigos do povo de Israel.(10) Um nacionalista patriota, um gentleman do século XIX que criava uma Jerusalém nas fábulas de suas poesias. Um russo que não acreditava mais na Rússia, então comandada pelos bolcheviques, e repudiava o comunismo. Casado com sua prima Shlomit Levin, fogem da Revolução Russa para os Estados Unidos, retornando em seguida para a Europa e se estabelecendo em Vilna(11) , então território Polonês e atual capital da Lituânia, em 1921. Em Vilna seus dois filhos – David Klausner e Yehuda Árie Klausner, pai de Oz – iniciaram a carreira acadêmica. Devido ao crescente anti-semitismo na Europa Oriental, com exceção de David, a família Klausner finalmente imigra para Jerusalém em 1933.
Aos doze anos, Naftali Hertz Musman foi entregue para trabalhar como aprendiz num moinho próximo de Rovno, na Ucrânia sob domínio do Império Russo, e ao crescer e desenvolver os negócios com a farinha de trigo, chegou a atingir Kiev, Moscou e São Petersburgo. No fundo era um comunista, mas não um bolchevique – que segundo ele tentaram mudar o mundo de repente e apenas a partir dos livros de Marx e Engels. Um casamento perturbado com Ita Guedalievna Shuster lhe dera três filhas: Chaia, Fânia – mãe de Oz – e Sônia(12) – as três estudaram no ginásio hebraico Tarbut; Fânia e Sônia partiram para a Universidade de Praga e Chaia para Jerusalém em 1933, onde se envolveu com o Partido Sionista. Com a Grande Depressão da década de 1930, os Musman chegam a Eretz-Israel quase sem nada também em 1933.
Cada uma ao seu modo, as famílias dos Klausner e dos Musman, como inúmeras outras, perceberam que a partir da década de 1920 cada vez menos havia espaço para os judeus na Europa – o que fortalecia a única alternativa que tinham, Eretz-Israel.
Foi em Jerusalém que Yehuda Árie Klausner e Fânia Musman se conheceram. Provavelmente nos quartos apertados do bairro de Kerem Avraham ou na universidade no monte Scopus por volta de 1935-6. No mesmo bairro morariam quando casados e quando veio à luz Amós Oz. O pai, então falante de onze idiomas e funcionário da Biblioteca Nacional, e a mãe, então falante de seis idiomas, liam em inglês ou alemão, sonhavam em ídiche, mas ensinavam a Oz apenas o hebraico.
As primeiras lembranças de sua própria vida que Oz toma nota referem-se ao seu primeiro par de sapatos, e a sua babá tia Gerta – que morreria durante o cerco de Jerusalém pelos árabes em 1947. Em seguida relembra o conflito de seus pais para decidir em que escola estudaria – primeiro com aulas particulares na escola Pátria da Criança, depois no colégio conservador-nacionalista Tchachmoni. Os pais descarregam então, suas frustrações sobre o menino Oz.
Oz vai para o colégio Tchachmoni no ano de 1947 quando os tumultos tomam Jerusalém: a guerra, os bombardeios, o sítio e a fome. Os anos de pânico do final do mandato britânico na Palestina. O que os ingleses ainda fariam antes de voltar para casa? E assim que saíssem os árabes massacrariam os judeus? Era quase certo na sua memória. Mas alguns meses antes dos sangrentos acontecimentos, ocorrera de Amós se apaixonar por uma garota árabe.
No mesmo ano seus pais foram visitar amigos em Natanya, deixando-o com a família Rodnitzky – que Oz chama de tio Stashek e tia Mila. Na ocasião a família Rodnitzky foi visitar a família Al-Siluani, árabes, em comitiva diplomática do outro lado da cidade de Jerusalém, na Jerusalém dos estrangeiros onde os judeus sentiam estranha inquietação e hostilidade, em Sheikh Jarakh – o lado da cidade de onde viriam os primeiros tiros após a instauração do Estado judeu. Oz, então com cerca de oito anos de idade, incorpora um jovem diplomata em missão numa potência vizinha.
Ali, no jardim da mansão dos Al-Siluani conhece uma garota, Aysha, com seu irmão menor Auad – sobrinhos-netos do dono da casa sr. Nagib Memaduach Al-Siluani. Numa inquietação diplomática Oz descarrega sobre a garota seus anseios – ou os que ouvia de seus pais e parentes acerca da relação entre os hebreus e os árabes. Foi ali, já trêmulo de exaltação nacionalista que Oz tenta demonstrar que os hebreus não são fracos como dizem por aí. Transformando-se de Zeev Jabotinsky em Tarzan – segundo suas palavras(13) -, Oz sobe numa árvore, encontra um objeto abandonado e enferrujado, e acaba ferindo o menino Auad.
O episódio aparece como o cume da obra de Oz. Quando criança esse episódio representava sua parte da culpa nos conflitos e guerras subsequentes com os árabes. O menino Oz que tinha sede de história, propagandista do sionismo, filho único que manejava guerras e estratégias militares, que se comunicava com Truman, com Londres ou com Tel Aviv, entre o banheiro e o seu quarto no pequeno apartamento de Kerem Araham. O menino que incorporara o “Novo Povo Hebreu” para encarar Aysha como o “Nobre Povo Árabe”; e não apenas como uma garota. Isso ele lamentou aos nove anos de idade.
A partir desse momento Jerusalém parecia dividida por uma cortina invisível. Uma tensão que foi agravada com as recomendações da ONU pelo UNSCOP (Comitê especial da ONU para a Palestina). Em meio à tensão o menino Auad foi ignorado por seu pai, e nunca mais tocaram no assunto.
Os boatos que rondavam Jerusalém – mobilizados pelo pânico, pelos sionistas, pelos jornais e pelo rádio – eram o combustível maior de toda a tensão. A Liga Árabe seria um braço dos britânicos que depois os deixaria retornarem pelos fundos? Os ingleses, ou o Império Britânico, ficariam parados perante as atividades dos sionistas fanáticos? Os judeus ricos, que teriam mais informações, já haviam recomendado que os demais judeus se recolhessem o quanto antes para um lugar mais seguro como os Estados Unidos ou, pelo menos, Tel Aviv que não era rodeada de árabes.
Entre todas as expectativas, apocalípticas ou não, todos profetizavam a guerra. As famílias, e inclusive a de Oz, passaram a armazenar comida; as rádios clandestinas transmitiam canções patrióticas e os ânimos eram elevados com os comícios dos líderes comunitários gritando “Pátria Judaica! Imigração Livre”.(14)
Ao final de agosto de 1947 a Grã-Bretanha anunciara o fim do mandato na Palestina, e sobre o mesmo território a ONU criaria dois Estados independentes. Os judeus concordaram, embora com 75% de suas terras desérticas e sem Jerusalém. Os árabes, todavia, reivindicaram o passado, os lugares sagrados do Islã, a cultura árabe da paisagem, etc. Na ocasião, o alto comissário britânico informara David Bem Gurion: “Quando vier a desgraça, temo não poder ajudar vocês”.(15)
Os habitantes de Kerem Avraham não sabiam se rezavam pelo UNSCOP ou pela permanência dos britânicos para sua própria sobrevivência. E se os judeus entregassem todas as atividades clandestinas, os grupos terroristas e os armamentos ilegais aos britânicos? Eles permaneceriam?
Fato é que a votação seria no dia 29 de novembro em Lake Success. O pai de Oz, que sempre preferia o caminho da redenção, acreditava fielmente que os países votariam por si próprios e não segundo a lógica da cotação do petróleo árabe. E, todavia, parecia que a Igreja arrastaria diversos votos contra os judeus, bem como faria Stalin, a Inglaterra, e a França com suas colônias cheias de árabes.
Atentos ouvindo o rádio em Kerem Avraham, Oz, sua família e quase toda a vizinhança ouviram o resultado da votação. O Estado judeu estava aceito, muitos choraram, se abraçaram e dançaram noite afora, inclusive os britânicos que ainda pairavam em Jerusalém.
Um momento de euforia. As tristes espectativas que assombravam Jerusalém se concretizaram entre dezembro de 1947 e março de 1948. Oz nos passa cada detalhe de Jerusalém sitiada, isolada de Tel Aviv e do resto do mundo judeu. A maior parte das colônias judias foi conquistada pelos árabes, que agora viam os judeus como agentes da Europa colonizadora e imperialista. As escolas fecharam e por muito pouco, salvo por uma febre alta, seu pai não foi assassinado pelos árabes a caminho do trabalho.

[…] não foi só minha culpa. Não tudo. Eu só falei e falei e falei. Aysha também teve culpa. Pois ela quem disse vamos ver se você consegue subir na árvore. Se ela não tivesse me desafiado daquele jeito, eu não teria escalado na mesmo hora, e o irmão […]
Inútil. Já foi. (16)

E assim, com reticências, vários dos contos dispersos de Amós Oz ficam intencional e necessariamente sem a conclusão, mas que com o desenrolar de suas reflexões vão se ligando. Como foi dito no começo, o leitor sábio procura a essência do conto no espaço entre este e seu leitor. Que no caso se trata de um investigador da história no início do século XXI.
Importante ressaltar a relevância da obra de Oz como documento histórico. Um romance hebraico autobiográfico escrito por um autor que viveu e sobreviveu num dos locais mais conflituosos do século XX. O Oriente Médio árabe que chocou (e choca) com a utopia judaica; onde ambos foram interditados, perturbados e manipulados por vezes pelos Europeus e recentemente pelos Estados Unidos. O Oriente Médio que resistiu (e resiste) às tentativas de modernidade imposta pelo imperialismo e que, entretanto, ganhou um novo inimigo na lógica da Guerra Fria com a intervenção dos Estados Unidos.
Vale ressaltar que o objetivo da resenha não é de exaltar os judeus como “vítimas”, ou da mesma forma concluir que os árabes “atacaram primeiro”. Apenas reproduzimos a lógica que desde o começo Amós Oz deixou claro: não há história que não seja confessional.

3. Nacionalismo, terrorismo e utopia(17)

O nacionalismo judaico surgiu de diversas formas diferentes por razões óbvias, o povo judeu não tinha um Estado próprio desde o século primeiro da era cristã. Entretanto, o nacionalismo judaico, como os diversos “nacionalismos”, será fortalecido após a Revolução Francesa. Perseguidos no império dos czares e na Europa Central, os judeus sonhavam, como Herzl, encontrar uma pátria, que só podia ser o antigo território de Israel na Palestina.
Na virada do século XIX para o século XX os sionistas visavam um Estado judeu que pelo menos tivesse a maioria de sua população judaica. Ao término da Primeira Guerra Mundial, no início do mandato britânico, a Palestina era ainda esmagadoramente muçulmana e cristã árabe. Em 1948, pós-genocídio nazista e com as únicas esperanças voltadas para Eretz-Israel, o sentimento nacional judaico não poderia estar mais latente. Por outro lado, frente ao Império Britânico e ao colonialismo, aumentava também o sentimento nacional árabe.
No caso primeiro dos judeus, o sentimento nacional inflado nos movimentos sionistas via como alternativa o terrorismo contra os britânicos, que inicialmente apoiavam a idéia de um lar judeu, mas que aos poucos pareceram aliados aos árabes – bastante sentido no decorrer da obra de Oz. Terrorismo do período que pode ser entendido apenas como forma de resistência e será resignificado no período da Guerra Fria.
Embora os familiares de Oz não fossem ligados aos movimentos terroristas, podemos perceber na família de seu pai alguns indícios desse sentimento nacional da virada do século XIX. Yossef Klausner estivera ligado ao movimento Chibat Zion, que surge na Rússia em 1882 e projeta o futuro da nação de Israel como um “leão entre leões”, como diria Jabotinsky – líder do “revisionismo” sionista a quem o avô de Oz fazia apologia em seus poemas escritos em russo. O avô Aleksander Klausner, o homem do século XIX, reivindicava a Palestina como se fosse um judeu da diáspora no século I e considerava que os árabes deveriam voltar para sua pátria histórica, a Arábia Saudita. Além disso, o próprio pai de Oz mostrava-se um nacionalista, um patriota que acreditava na redenção final do povo judeu.
Na família de sua mãe, não conservadores como os Klausner, também é possível perceber nuanças desse sentimento judaico que ansiava pela sua terra, pela utopia de um lar judaico. Sentimento esse que fora inculcado nas tias Sônia e Chaia no Ginásio hebraico Tarbut, ainda em Rovno. Lá elas acompanhavam a situação das colônias na Palestina, apenas aprendiam o hebraico e sonhavam com Tel Aviv. No Tarbut também era reforçada a idéia de um convívio mútuo entre os árabes e os judeus na Palestina. Chaia fora para a Eretz-Israel antes das demais, em 1933, se envolvendo então com o Partido Sionista. Sônia conseguira conquistar Tel Aviv. Fânia, entretanto, não conseguindo realizar nenhum sonho de sua juventude, não agüentou os acontecimentos de Jerusalém e se suicidou em 1952.

Todos tentavam se convencer, com todas as forças, de que os dias difíceis iriam passar, o Estado judeu logo iria ser fundado, e tudo iria melhorar rapidamente, pois com certeza sua taça de sofrimento estava quase a transbordar.(18)

Agora pensando no problema visto pelos árabes, este se agravara com a partilha da Palestina decidida pela ONU no final do ano de 1947. Ou melhor, desde o final da Primeira Guerra Mundial, com a derrocada do Império Turco-Otomano, os europeus redefiniram as fronteiras do Oriente Médio. O estabelecimento de um Estado judeu – afora o fato de que Jerusalém seria território neutro – na visão dos Estados árabes vizinhos não poderia ser outra senão a de um retorno ao colonialismo. Era esperado por todos, tanto pelos europeus e norte-americanos quanto pelos árabes, que o Estado de Israel se expandiria. Os estados árabes que estiveram contra Israel na crise de Suez em 1956 (Nasser), na Guerra dos Seis Dias em 1967 (Egito, Jordânia e Síria) e no Yon Kipur em 1973 (Egito e Síria) foram derrotados, e dessa forma o terrorismo fora a única alternativa restante.
Desde o início o Estado de Israel nunca obtivera reconhecimento completo dos Estados vizinhos, e atualmente ainda não o reconhecem o Hamas (da Palestina) e o Hizbolá (do Líbano) – vendo apenas um navio norte-americano atracado em pleno Oriente Médio. E a Europa, depois de tanto fazer, mantém uma política constrangida e reservada. Na visão de Oz, a Europa também empurra os judeus para cima dos árabes afinal, nem os árabes, nem os europeus querem os judeus, mas os europeus são “mais poderosos” que os árabes.
Podemos concluir talvez, que a utopia judaica continua em aberto com a falta de legitimidade na região. A falta do reconhecimento de um “leão entre leões”.
4. Os Estados Unidos

Segundo Finkelstein, de maneira arbitrária, os judeus se comportaram de fato como colonizadores após consolidação da partilha da Palestina e tinham duas alternativas de realizar essa “colonização”, via apartheid ou via transferência. A idéia de transferir a população acompanhara o movimento sionista há muito. Em 1948, 80% dos palestinos foram remanejados para que o Estado de Israel se tornasse de fato majoritariamente judeu. Talvez fora esse o primeiro ponto de sensibilidade que os Estados Unidos tiveram em relação a Israel, pois foi o que fizeram na sua “Marcha para o Oeste”. Naquele momento, viam então os árabes como selvagens que deviam ceder para o progresso.
Não bastasse as questões entre árabes e judeus, saindo a Europa, os Estados Unidos entra em cena desde, pelo menos, Lake Success. Além disso, podemos considerar o Estado de Israel como resultado das Grandes Guerras, nas quais os Estados Unidos levaram a melhor.
Na obra de Oz podemos perceber que os fios de esperança que teciam a utopia dos judeus por vezes passavam pelos Estados Unidos. Em meio à tensão na qual viveu Jerusalém no final do mandato britânico

Havia aqueles que esperavam que, com a retirada dos britânicos, Truman, o presidente dos Estados Unidos, entrasse em cena e num instante enviasse suas tropas. Dois porta-aviões americanos gigantescos já tinham sido vistos em águas da Sicília, rumando para leste. O presidente Truman não permitiria de modo nenhum o massacre de judeus, um segundo Holocausto menos de três anos depois do Holocausto de seis milhões: os judeus americanos, ricos e influentes, fariam pressão nesse sentido, não ficariam impassíveis.(19)

Amós Oz faz uma comparação curiosa que nos serve aqui. Compara os árabes e os judeus como povos irmãos, filhos de um pai que os rejeita, a Europa, mas que não necessariamente se uniriam contra ele. Os judeus foram perseguidos e oprimidos, os árabes foram humilhados e explorados, mas o ódio dos árabes seria tanto que vêem os judeus como novos agentes da Europa.
Na lógica ocidental os países árabes do Oriente Médio não podem se unir por essa causa, nem por quaisquer outras (como ocorrera na crise do petróleo em 1973), por isso os Estados Unidos não enviaram dois porta-aviões, mas fizeram do Estado de Israel o seu próprio porta-aviões no Oriente Médio. Em troca, Israel permanece numa relação instável com seus vizinhos, mas se tornou uma potência militar considerável na região.

5. Conclusão

A obra de Amós Oz, embora inicialmente um romance autobiográfico é fundamentada num dos conflitos mais sangrentos e duradouros do século XX. Serviu para demonstrar o levante do nacionalismo judaico e das utopias judaicas frente à Eretz-Israel. Bastante significativa por envolver história de sua família, mas também envolver poetas, líderes sionistas e políticos – e tudo isso acaba por explicar diversos fatores.
A análise não se fez completa, pois não foi possível englobar a totalidade da obra. Mas cada conto de Oz, ou cada trecho da obra revela a lógica de toda ela. Uma oscilação entre o presente e o passado, afinal além de Oz ter crescido e vivido por muitos anos em meio aos conflitos, eles subsistem até hoje.
A história de Oz é confessional e parcial? Sim. Mas ele avisou que seria e, nesse sentido que buscamos informações para não ficarmos apenas na lógica judaica do conflito ou para não cairmos num juízo de valor. Não houve quem atacou primeiro, ou quem tem o direito milenar à Palestina. Assim como não é a Inglaterra a culpada por isso, ou os Estados Unidos culpados por aquilo. Tentamos apenas fazer um apanhado geral de algo tão complexo quanto quase todos os conflitos do século XX.
Complexo devido à lógica bipolar da Guerra Fria, devido aos inúmeros fatores e países envolvidos. Também devido à resignificação do terrorismo e do surgimento de novos grupos como a Organização para Libertação da Palestina. E além de tudo, porque também envolve religião.
Complexo porque envolve os ânimos da nossa história, da consciência histórica da contemporaneidade. Ou apenas porque envolve um brado do “terceiro mundo” em relação aos Estados Unidos.

6. Bibliografia de apoio

FINKELSTEIN, Norman G. Imagem e realidade do conflito Israel-Palestina. Tradução de Clóvis Marques. Rio de Janeiro: Record, 2005.

HOBSBAWM, Eric. J. A Era dos Extremos: o breve século XX: 1914-1991. 2ª Edição. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

HOURANI, Albert. Uma História dos Povos Árabes. 1ª Edição. São Paulo: Companhia de Bolso, 2006.
NOTAS DE REFERÊNCIA

(1) OZ, Amós. De amor e trevas. Tradução do hebraico e glossário de Milton Lando. 2ª reimpressão. São Paulo: Companhia das Letras, 2005, p. 291.
(2) OZ, Op. Cit., p. 397.
(3) Em especial de seu tio Yossef Klausner.
(4) OZ, Op. Cit., pp. 55-59.
(5) OZ, Op. Cit., pp. 11-14.
(6) OZ, Op. Cit., pp. 40-41.
(7) OZ, Op. Cit., p. 45.
(8) Líder do movimento sionista “revisionista”, nascido em Odessa, Rússia, mesma cidade em que morava a família Klausner.
(9) Yossef Klauser também é objeto de várias páginas da obra de Oz. Intelectual, pesquisador, professor de seu pai na universidade, Yossef Klausner disputara a presidência de Israel em 1949 pelo partido de direita Herut, liderado então por Menahen Begin.
(10) Segundo Oz, naquele tempo quase todos eram poetas, escritores e intelectuais. Especialmente quando instaurado o toque de recolher pelos britânicos, as pessoas se trancavam e exprimiam seus sentimentos nas cartas, nos poemas e nos livros.
(11) Sua casa em Vilna transformara-se em uma espécie de salão literário freqüentado por autores como Bialik e Tchernichowski.
(12) Com a ajuda de sua tia Sônia, então habitante de Tel Aviv, Amós Oz constrói parte considerável das memórias da obra relativas à família de sua mãe.
(13) OZ, Op. Cit., p. 375.
(14) OZ, Op. Cit., p. 384.
(15) OZ, Op. Cit., p. 386.
(16) OZ, Op. Cit., p. 421.
(17) Reflexão apoiada no obra de FINKELSTEIN, Norman G. Imagem e realidade do conflito Israel-Palestina. Tradução de Clóvis Marques. Rio de Janeiro: Record, 2005.
(18) OZ, Op. Cit., p. 149.
(19) OZ, Op. Cit., p. 383.

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