Páginas de terra: O papel da escrita em quatro romances de Mia Couto

Susana Ramos Ventura(1)

Resumo: O ensaio analisa quatro romances do escritor moçambicano Mia Couto. O foco principal é o da observação da presença e papel da escrita e das personagens que se relacionam com a escrita nas obras Terra sonâmbula, A varanda do frangipani, O último voo do flamingo e Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra. A conclusão aponta para a busca identitária realizada pelas personagens que se relacionam com o universo escrito.

Palavras-chave: romance moçambicano;Mia Couto; identidade; escrita.

Abstract: This essay analyses four novels by de mozambican author Mia Couto. The focus is the observation of the presence and role of the writing and the characters that have relationship with writing in Terra sonâmbula, A varanda do frangipani, O último voo do flamingo and Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra. The conclusion is that the characters related with the universe of writing are involved in an identitary search.

Key-words: mozambican novel; Mia Couto; identity; writing.

Para o propósito de nossas considerações, efetuaremos um percurso por quatro dos romances de Mia Couto:Terra sonâmbula (1992), A varanda do frangipani (1996), Vintezinco (1999), O último voo do flamingo (2000) e Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra (2002).destas obras: Terra sonâmbula, A varanda do frangipani, O último voo do flamingo e Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra. Antes, porém, teceremos algumas considerações sobre a linguagem forjada e empregada por Mia Couto em sua obra em prosa.

Quando Mia Couto chega ao romance (1992), o estilo que o tornaria conhecido já estava forjado. Seu primeiro livro de contos, Vozes anoitecidas (1986), representou um marco na literatura moçambicana, uma vez que nele, ao mesmo tempo que retoma tensões próprias daquela literatura, promove sua atualização. Segundo José Craveirinha, no prefácio que fez à edição portuguesa da obra:

[…] esta colectânea de contos com que Mia Couto se estreia na ficção tem,quanto a nós precisamente o mérito de reestabelecer o elo, reavivar uma continuidade, partindo do Godido de João Dias, passando inevitavelmente pelo Nós matamos o Cão Tinhoso de Luís Bernardo Honwana.
Ou equívoco nosso ou este Vozes Anoitecidas imbui-se de um referencial algo importante para nós moçambicanos, literalmente: Indo afoitamente remexer as tradicionais raízes do Mito, o narrador concebe uma tessitura humano-social adequada a determinados lugares e respectivos quotidianos. Mia Couto faz-se (transfigura-se) vários seus personagens pela atenta escuta de pessoas e incidentes próximos de si, porque o homem-escritor quer-se testemunha activa e consciente, sujeito também do que acontece e como acontece, já que desde a infância pôde saber-se objecto.(2)

Dois anos depois, em 1988, a publicação de Cronicando – composto por muitas crônicas publicadas na imprensa nos anos anteriores e por algum material novo – em que muitas vezes o gênero conto é tangenciado e explorado, como observou Carlos Reis.(3) A publicação de Terra sonâmbula reafirma a opção de Mia Couto pela prosa, que, no entanto, é trabalhada de maneira densamente poética, em procedimentos que lembram o labor do poeta. Uma vez mais, José Craveirinha adiantou-se na apreciação deste aspecto da obra de Mia Couto ainda no prefácio a Vozes anoitecidas: “Mia Couto entrega-se ao renovo […] Inserindo-nos no ritmo do poeta que já era e no modular sóbrio, conciso […], do narrador recreando-se no prazer do contador de estórias.”(4)

No que diz respeito à linguagem, Mia Couto busca no registro oral muitos elementos para elaboração da escrita. Segundo Ana Mafalda Leite – em análise de Vozes anoitecidas – em Mia Couto: “As vozes condensam-se, amalgamam-se numa só, refeita em escrita, que transporta no seu tecido a memória da multiplicidade, arquétipo e arquitectura reposta num novo corpo lingüístico.”(5) Ressalta ainda Ana Mafalda Leite, o trabalho, realizado por Mia Couto, de “proximidade maior com a captação de “vozes” do português oral moçambicanizado.”(6)

Segundo os estudos de Perpétua Gonçalves, as inovações lingüísticas da obra do autor têm ênfase na parte lexical, sendo poucos os contributos em termos de mudanças gramaticais. Nas inovações operadas no léxico, grande parte delas resulta do processo de “amálgama”, trabalho executado a partir de palavras pré-existentes do português padrão ou da variante moçambicana da língua.(7)

Perpétua Gonçalves aproxima, em outro ensaio, Mia Couto a Luandino Vieira, pelos procedimentos lingüísticos adotados, aos quais atribui o estatuto de “opção de escrita”:

Ambos fazem parte do grupo de escritores que não adoptam integralmente a norma europeia no seu discurso literário. Tratando-se nos dois casos, de falantes nativos de Português, que conhecem esta norma, a presença de formas desviantes no seu texto literário tem de ser tomada como uma plena opção da sua escrita em Português. Tal não significa, contudo, que os desvios que ocorrem nas suas obras procurem respeitar as “novas” regras do Português, criadas pelas comunidades de falantes desta língua em Angola ou Moçambique.(8)

Voltando a nossas considerações sobre a obra escrita na forma romance, o foco principal de nossas reflexões recairá sobre a observação da presença e papel da escrita nessas obras – sempre que apareça em forma de diários, cartas e bilhetes – transcritos na narrativa. No entanto, há algumas questões, como a da convivência/oposição entre tradição e modernidade, oral/escrito, sociedade de inspiração ocidental/sociedade de inspiração africana que nos parecem indissociáveis do assunto principal e que também deverão ser abarcadas sem nos desviarmos de nossa questão principal.

Gostaríamos de enfocar alguns aspectos da questão principal apontada acima, com o objetivo principal de configurar como a palavra escrita (e sua leitura) aparece dentro da obra de Mia Couto como elemento de busca identitária para as personagens. Além disso, levantaremos alguns pontos referentes aos outros aspectos definidos, visto que aparecem/transparecem na escrita (tanto naquela do autor quanto na “escrita dentro da escrita”): a permanente tensão entre tradição e modernidade, jamais resolvida e motivo de angústia e questionamento das personagens e narradores, tensão esta metaforizada, via de regra, por personagens transpassados pela angústia existencial acarretada por um sentimento de inadequação à realidade imposta por um mundo em que a harmonia, outrora garantida pela tradição, não está mais disponível. Há por outro lado uma consciência de que a volta à ordem puramente tradicional não é possível e que o mundo harmonioso de certezas não pode ser recuperado. Existe, na obra coutiana, uma tendência a valorizar de maneira mais enfática tudo o que esteja ligado ao mundo tradicional moçambicano e por extensão africano.

O percurso das narrativas de Mia Couto – de Terra sonâmbula até Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra – é o de trajetórias que apontam para um crescente desencanto (do autor) em relação ao futuro. Da esperança ainda muito presente no primeiro romance, escrito quando o país saía de duas grandes guerras empreendidas, uma consecutiva à outra – sendo a primeira de luta pela libertação do país dos laços coloniais que o prendiam a Portugal e a segunda um violento conflito civil – ao desencanto amargo do último, quando as tentativas de construção da nação moçambicana parecem condenadas a caminhos tortuosos e percalços infinitos.

Os “caminhos” nos romances de Mia Couto são literalmente tortuosos, ou até impossíveis. Da “estrada morta pela guerra” do início de Terra sonâmbula(9) à “ilha sem estrada”(10) de Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra, passando pela “fortaleza/fracaleza” só alcançável pelo mar ou pelo ar de A varanda do frangipani e pela vila de Tizangara de O último voo do flamingo, em que não se pode mais caminhar pelo risco de explosão por minas plantadas no solo.

Podemos notar constantes nos romances, em que as personagens buscam, incessantemente por identidades possíveis, vidas mais dignas e por compreender os mistérios de suas próprias vidas diante das catástrofes causadas pela brutal dominação colonial seguida por guerras. Via de regra, a busca coloca as personagens diante de dilemas de impossível resolução e de escolhas que se revelam insensatas. A busca das personagens de Mia Couto ocorre numa sociedade em construção – a moçambicana de pós-guerras – na qual as fissuras e a destruição conseguem muitas vezes dominar o cenário de tal maneira que inviabilizam, como se através de uma contínua erosão, qualquer tentativa de estabilização.

O desencanto crescente parece alegorizado pela sucessiva “perda de território” e “insulamento” que ocorre de romance para romance. Em Terra sonâmbula a “terra moçambicana”, embora arrasada pela guerra, é vasta, com dimensões continentais. N’A varanda do frangipani o território começa a diminuir: a fortaleza em que se passa a ação está ilhada, entre o oceano e as minas terrestres, o restante do território nacional é mencionado apenas. Outra cidade-ilha, a fictícia Tizangara também está limitada por minas terrestres em O último voo do flamingo.

Ao final do romance o território simplesmente desaparece e as personagens ficam à beira do abismo. Carmen Tindó Secco identifica Tizangara como equivalente simbólica de Moçambique e analisa que, nesse romance, é apresentado “um viés utópico, a par da imagem apocalíptica do abismo em que, alegoricamente, ao final da narrativa, afunda Moçambique.”(11) Outra ilha, Luar-do-Chão, constitui cenário de Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra, em que a totalidade do país imaginado, o menor de todo o mundo, está compreendido pela mencionada ilha, e por uma cidade, que se encontra além do rio. Mesmo neste tão pequeno “território nacional” existe uma divisão de valores aparentemente irreconciliáveis entre os dois pólos.

No que diz respeito às personagens dos romances de Mia Couto, vemos, com freqüência, uma “população imaginada” entre dois mundos: aquele oferecido (e no mais das vezes imposto) pela sociedade ocidentalizada, de raízes coloniais, num país que ainda está sendo construído como nação, e que em geral não consegue oferecer nem o que poderíamos chamar de “conforto estrutural próprio dos modernos Estados ocidentais”, muito menos oferecer respostas a anseios íntimos de busca individual/existencial e o outro, o mundo africano marcado pelos “modos da tradição”. Recentemente falando a alunos da pós-graduação da Universidade de São Paulo,(12) o intelectual moçambicano José Luís Cabaço chamava a atenção para a violenta confrontação cultural entre dois mundos com cosmologias distintas e sintetizou as duas sociedades de maneira sucinta e contundente: enquanto a sociedade ocidental é a sociedade da dúvida, a africana poderia ser descrita como a das certezas.

Grande parte dos protagonistas dos romances de Mia Couto poderia reafirmar, em sua transfigurada linguagem poética, as opiniões de José Luís Cabaço – e nos arriscamos a afirmar que efetivamente o fazem. Por exemplo, o protagonista de Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra, Mariano, fala sobre seu “país”, o imaginário “Luar-do-Chão:”(13)

Nenhum país é tão pequeno como o nosso. Nele só existem dois lugares: a cidade e a ilha. A separá-los, apenas um rio. Aquelas águas, porém, afastam mais que a própria distância. Entre um e outro lado reside um infinito. São duas nações, mais longínquas que planetas. Somos um povo, sim, mas de duas gentes, duas almas.(14)

A epígrafe ao primeiro capítulo, do qual extraímos a citação, também falava em duas nações, mas em outra acepção: “Encheram a terra de fronteiras, carregaram o céu de bandeiras. Mas só há duas nações – a dos vivos e a dos mortos.”(15)

A morte é motivo muito presente na obra de Mia Couto, seja pela retratação de guerras e conflitos de âmbito regional, seja pelo relato de vivências civis e individuais. Nos romances é vista pelo prisma africano, especificamente no legado das culturas de matriz bantu – em que a relação com a morte e, mais do que isso, a relação com os ancestrais é muito distinta à visão ocidental. Segundo Eduardo de Araújo Teixeira, no ensaio “A reabilitação do sagrado: epifania e morte nas Estórias de Mia Couto e Guimarães Rosa” sobre a obra de Mia Couto:(16)
A maior parte de sua criação apresenta uma relação dialética com o “culto dos antepassados, da ancestralidade”; e aponta para uma tentativa de reconciliação do homem contemporâneo com este universo sagrado. A recondução do homem rumo aos laços sagrados da ancestralidade é um tema obsessivamente reiterado na obra de Mia Couto.

A concepção de um mundo dominado pela coexistência nem sempre pacífica entre a “nação dos vivos e a dos mortos”, o povo “de duas gentes, duas almas”, marca lugar nos quatro romances de Mia Couto. A “nação dos vivos” deslocando-se pelos caminhos incertos – de uma terra sonâmbula onde cada passo pode significar a morte – busca incessantemente uma relação harmoniosa com o mundo, do qual faz parte onipresentemente a “nação dos mortos”. A tradição oferece, então, um conjunto de regras e preceitos para um equilíbrio entre vivos e mortos, equilíbrio, no entanto, fadado à precariedade pela coexistência irreversível com o mundo ocidentalizado e letrado.

Retomando o que disse José Luís Cabaço, o encontro das duas sociedades: a da dúvida e a da certeza, em Moçambique nos dias de hoje, é um dos temas mais tratados pelos romances de Mia Couto. Nesse encontro, a escrita aparece como um marco. Em Terra sonâmbula, Muidinga, um menino doente e aparentemente órfão, que perdera a memória durante a guerra civil moçambicana, é cuidado por um idoso, Tuahir, primeiro num campo de refugiados e a seguir por uma peregrinação incerta por caminhos devastados pela guerra. A partir dessa espécie de adoção, que possibilita a recuperação e a saída de Muidinga do campo de refugiados, ambos, menino e velho, retomam juntos suas vidas. No início dessa relação o idoso cuida do menino, porém a vida de ambos será alterada a partir do contato de Muidinga com os diários de um morto, encontrados à beira da estrada que, no passado era a principal via que atravessava Moçambique. A leitura dos diários, que passará a ser feita em voz alta pelo menino, permitirá que ele chegue novamente às letras através da lembrança da faculdade da leitura, e com isso inicie uma busca identitária/utópica. Identitária em dois âmbitos: o pessoal, uma vez que Muidinga perdeu a memória, e também social, uma vez que, além de não se lembrar de uma história pessoal, o protagonista não tem igualmente acesso à história da sociedade à qual pertence. O idoso, que não é alfabetizado, se envolve nessa busca e tem sua trajetória também alterada pelos acontecimentos desencadeados a partir desse momento. A relação entre o menino e o homem velho pode ser vista como uma metáfora do encontro de diferentes experiências, oriundas de modos distintos de ver a realidade no passado recente e no presente que se quer futuro. A coexistência de saberes, legados, experiências e expectativas que marcam a relação de Tuahir e Muidinga que, juntos, empreendem uma jornada, parece demonstrar, não apenas que ambos precisam um do outro para conseguir se mover, mas também simboliza a necessidade de Moçambique avançar em direção à construção de uma nova sociedade, que possa responder aos anseios dos seres humanos que a habitam.

A busca de Tuahir e Muidinga é, em muitos momentos, além da busca por identidade do menino desmemoriado e de um sentido para a vida do idoso, a procura por um mundo em ordem, pelas certezas. Esta busca é mediada pela escrita representada pelos cadernos de Kindzu – o morto encontrado junto a outros cadáveres ao lado de um ônibus incinerado e do qual não chega a conhecer-se o rosto – uma vez que fora enterrado após ter seu corpo arrastado de bruços pelo velho e o menino. Segundo Tania Macêdo:(17) “São as histórias dos “cadernos de Kindzu” que apresentarão o imaginário da terra moçambicana com os seus “naparamas” (guerreiros de corpo fechado), os ritos das velhas ou os fazedores de rios. É a oratura transformada em escrita que encontramos nos cadernos.” Portanto, é um morto que, através da escrita(18) , contará, primeiro ao menino – capaz de leitura – e depois, através dele, pela leitura efetivada em voz alta, a pedido do velho, que escuta a narrativa – seus anseios, sua trajetória de vida e sua relação com a ancestralidade – palco tradicional das certezas, mas que, no presente, não oferece suficientes subsídios diante das demandas da nova realidade.

Mia Couto revela considerar Terra sonâmbula como livro de viagem em que a busca identitária ocupa lugar de destaque, em que são tratadas questões centrais para a sociedade moçambicana contemporânea:

Eu não acho que é um livro sobre a guerra, é um livro de viagem, é um livro de procura de identidade. Aquele personagem, o Kindzu, sai à procura de um outro lugar, mas está à procura de si mesmo. E Moçambique vive muito essa cruzada, Moçambique é um país jovem, não é uma nação, no sentido de ter uma história consolidada, uma ligação. É o caso em que o Estado está a construir a nação, a fazer encontrar pontos comuns entre as nações que são historicamente determinadas e diferentes e no mundo dessas diferentes culturas, diferentes histórias, uma única nação moderna, que é esta que estamos a criar em projeto.(19)

Em A varanda do frangipani, um crime cometido num asilo de idosos situado numa fortaleza quase inacessível leva o governo a enviar um inspetor, Izidine Naíta, a um asilo situado em uma fortaleza praticamente inacessível no momento descrito na efabulação. Através de uma investigação, o inspetor deve descobrir o culpado pela morte do diretor do Asilo. Conduzido como um romance policial tradicional, no entanto, em pouco tempo o crime pode não ser exatamente aquele, além de duas circunstâncias agravantes: o inspetor é “habitado” pelo espírito de um antigo operário que morrera no local e que, além disso, assume a função de narrador e, no decorrer da narrativa, todos os suspeitos se afirmam como culpados. A investigação, que deveria ser conduzida por Izidine com base em suas anotações, acaba por tomar outro rumo. Como em outros pontos da obra romanesca coutiana, a narrativa de cunho popular – no sentido “benjaminiano” – interrompe a narrativa romanesca, na medida em que várias personagens tomam a palavra e narram “causos”, “histórias pessoais”.(20) A varanda do frangipani é o romance de Mia Couto em que podemos dizer que a reprodução do relato oral e das experiências da oralidade predominam em importância e relevância sobre aquela representada pela dimensão escrita do mundo do inspetor – que deve tomar notas dos acontecimentos e através do cotejo dos depoimentos, chegar a uma hipótese sobre a autoria do crime. Porém, na narrativa, o inspetor deixa-se dominar pelo relato oral, através do qual lhe é proposto que o crime que está tentando desvendar, em realidade, não é o principal que está sendo cometido ali: o crime “verdadeiro” seria “estarem a matar o antigamente.”(21) As anotações do inspetor são questionadas logo no início da investigação, por seu primeiro depoente, Navaia Caetano, que adverte: “Enquanto ouvir estes relatos você se guarde quieto. […] Não escreva, deixe esse caderno no chão.”(22) Chão que acabará por receber o caderno de notas, enterrado junto ao corpo do “fantasma” de Ermelindo Munanga: “O livrinho apodrecerá com meus restos. Os bichos se alimentarão dessas vozes antigas.”(23)

Uma vez mais, como se dá em Terra sonâmbula, a escrita é apresentada como o veículo de transmissão da tradição.

O último voo do flamingo também assume características da narrativa de cunho policial, com várias similaridades com A varanda do frangipani: a vila em questão também se encontra bastante isolada pela presença de minas terrestres plantadas no solo em volta de seu território, igualmente é chamado um investigador externo – desta vez não um membro da polícia, mas sim, um representante das Nações Unidas. Esse investigador, de nacionalidade italiana, é auxiliado por uma personagem local – o narrador principal do romance, “o tradutor de Tizangara”. Antes do início da narrativa do romance, numa carta trasncrita, ele afirma que “transcreveu, em português visível, as falas” que se seguirão.(24) O tradutor – e o trocadilho que nos vem à mente “tradutore/traditore” é muito pertinente para o caso em questão – é um homem entre dois mundos, mediando não apenas o oral e escrito, mas dois mundos distintos e em grande parte “intraduzíveis” um para o outro: o mundo europeu do investigador italiano Massimo Risi – e uma nova brincadeira lingüística se impõe quando realizamos uma das possíveis traduções para português do nome da personagem (“Máximo Riso”) – e o mundo representado pela vila de Tizangara – universo africano despedaçado pela guerra e pela tentativa da construção de uma sociedade de bases socialistas que já dá mostras de esgotamento.

A personagem do “tradutor de Tizangara” nos faz pensar no próprio romancista Mia Couto, que parece muitas vezes tomar para si a função de tradutor, de intérprete de mundos, que cria ficcionalmente a partir de dados antropológicos do território moçambicano obras que parecem libelos à diversidade. Essa impressão é reforçada pelas declarações do próprio romancista:

No fundo o meu próprio trabalho literário é um bocadinho esse resgate daquilo que se pode perder, não porque seja frágil mas porque é desvalorizado num mundo de trocas culturais que se processam de forma desigual. Temos aqui um país que está a viver basicamente na oralidade. Noventa por cento existem na oralidade, moram na oralidade, pensam e amam nesse universo. Aí eu funciono muito como tradutor. Tradutor não de línguas, mas desses universos…(25)

O final de O último voo do flamingo volta a tocar na questão da escrita. O investigador, à beira do abismo, toma da folha de seu relatório para as Nações Unidas e transforma-a num pássaro de papel que atira pelos ares. A imagem da folha escrita que desta vez cai no precipício deixado pelo afundamento da terra lembra o final de Terra sonâmbula, em que as folhas dos cadernos de Kindzu se tornam “páginas de terra”.

No último romance publicado, Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra, a personagem principal é Mariano, um jovem universitário que se encontra na cidade, afastado de sua ilha de origem – e que para lá é levado de volta para assistir ao enterro de seu avô, que não se consegue definir se está vivo ou morto. Na impossibilidade da definição do estado do avô – impossibilidade inclusive clínica – a via de comunicação entre ele e o neto se dá de maneira escrita: através de cartas que são compostas por este último quando em estado de transe.

Carmen Tindó Secco analisa algumas das tensões e dos aspectos da realidade moçambicana tratados pelo romance:

No romance Um Rio Chamado Tempo, uma Casa Chamada Terra, Mia Couto alerta para o perigo atual de muitas sociedades africanas perderem a capacidade de manterem esse intercâmbio entre os saberes de antigamente e os de hoje. […]. Crenças, mitos, costumes moçambicanos são redescobertos pelo protagonista, cujo mergulho no outrora o insere num ambíguo conflito entre as tradições de sua terra e a modernidade urbana a que já estava acostumado. Sua viagem de regresso à casa se transforma, assim, em um mergulho nas profundezas da história moçambicana, revisitando-a com um novo olhar.(26)

Em Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra, novamente a relação e mediação entre mundos distintos – o dos vivos e o dos mortos, o dos mais velhos e o dos jovens, o da tradição e o da modernidade – se dá pela mediação da palavra escrita, e escrita em português.

Através das relações com a escrita, personagens como Kindzu, Muidinga,
Izidine Naíta, Massimo Risi, o tradutor de Tizangara e Mariano, buscam compreender melhor a realidade que os cerca, interpretá-la para si mesmos e/ou para uma comunidade. Existe um processo de busca e construção identitária – mais visível no caso de Muidinga ( que assume a identidade de Gaspar), porém presente também na trajetória da galeria de personagens acima citadas. Kindzu busca colocar pela escrita o tempo “em ordem”, sendo que, no decorrer da narrativa, seu diário torna-se um meio de apaziguamento da relação com o pai, que termina por perdoá-lo, acreditando que a escrita do filho possa ensinar os outros moçambicanos a retomar a atividade de sonhar. Izidine Naíta espelha num certo sentido a personagem do tradutor de Tizangara. Ambos têm que “traduzir” para “português visível” mais do que as falas daqueles que encontram na tentativa de elucidar os “crimes”, a operação da tradução refere-se a algo muito mais profundo e indefinível: o modo de vida e o sistema de crenças dos “entrevistados”, constituídos por uma mesclagem de culturas onde predominam traços do que Couto chama em seus livros “o antigamente”.Ao tentarem efetuar a tradução, ambas as personagens acabam por se defrontar com questões relativas às faces identitárias ainda não plenamente pensadas. Para Massimo Risi o teor das notas que toma, sua escrita, revela-se inútil: com o desaparecimento do território, resta-lhe fazer do relatório um pássaro de papel, que atira sobre o abismo à espera de melhor futuro. Mariano, o neto que escreve as cartas “ditadas” pelo avô, deslinda sua verdadeira identidade: não é neto e sim filho do velho Mariano. Essa descoberta muda seu modo de estar no mundo, uma vez que todas suas relações familiares se modificam a partir da revelação da paternidade.
As relações com a escrita – através de personagens que escrevem, lêem, traduzem, transcrevem – nos romances analisados de Mia Couto são portanto vitais para a construção das narrativas e como ponto de intermediação de tensões entre tradição e modernidade, desta maneira promovendo a comunicação de personagens que habitam realidades distintas (metafóricas ou não), constituindo elemento de busca identitária para uma parcela destas personagens.

NOTAS BIBLIOGRÁFICAS
(1) Doutora em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa na Universidade de São Paulo. Pesquisadora do Núcleo de Estudos Ibéricos da UNIFESP, beneficiada com Bolsa FAPESP para o projeto “Histórias em diálogo”.

(2) CRAVEIRINHA, 1987, p.9-10. Itálicos do texto.
(3) Cf. conteúdo do curso da pós-graduação “Teoria e análise do conto”, ministrado na Universidade de São Paulo no segundo semestre de 2004, que investigava o conto como gênero com margens móveis e permeáveis.
(4) CRAVEIRINHA, 1987, p.10-11. Itálicos do texto.
(5) LEITE, 1998, p. 43.
(6) LEITE, 1998, p. 44.
(7) GONÇALVES, 1999, p. 118-119.
(8) GONÇALVES, 2000, p. 216.
(9) COUTO, 1995, p. 9.
(10) COUTO, 2002, p. 28.
(11) SECCO, 2003, p.130.
(12) Ministrada em 20/05/2003, no âmbito da disciplina de Pós-Graduação “Clássicos das Literaturas de Língua Portuguesa” do professor Benjamin Abdala Júnior, na Universidade de São Paulo no primeiro semestre de 2003.
(13) Segundo a pesquisadora Ana Cláudia da Silva (informação verbal), o próprio nome da localidade, “Luar-do-Chão”, nos diz sobre a peculiaridade e inversão de sentidos que parecem dominar os territórios descritos por Mia Couto: estamos diante de um mundo em que o “luar” (“o clarão da lua; a claridade que ela espalha sobre a terra”, conforme o Dicionário de Caldas Aulete) emana do chão.
(14) COUTO, 2002(b), p. 18.
(15) COUTO, 2002(b), p. 13.
(16) TEIXEIRA, 2005, p. 5.
(17) MACÊDO, 2002, p. 99 e 100.
(18) Situação que terá uma releitura em Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra.
(19) SILVA, 1997, p. 4.
(20) Esse “movimento” em direção à narrativa popular pode ser visto em Terra Sonâmbula, tão logo a jornada dos protagonistas prossegue depois do contato com os cadernos. Em O último voo do flamingo, que também assume características do chamado “romance policial”, ocorre algo bastante similar ao descrito em A varanda do frangipani, em Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra aparecerá com menor intensidade.
(21) COUTO, 1996(b), p. 59 (Parte do capítulo em que é narrado o interrogatório da personagem interrogatório de Navaia Caetano).
(22) COUTO, 1996(b), p. 28.
(23) COUTO, 1996(b), p. 26.
(24) COUTO, 1996(b), p. 11.
(25) MAQUÊA, 2003, p. 04.
(26) SECCO, 2004, p. 06.

Referências bibliográficas:
CRAVEIRINHA, José. “Prefácio à edição portuguesa”. In COUTO, Mia. Vozes anoitecidas. Lisboa: Caminho, 1987, p. 9-12
COUTO, Mia. Mar me quer. Lisboa: Parque Expo 98, 1997.
______. Pensatempos – textos de opinião. Lisboa: Editorial Caminho, 2005.
______. Terra sonâmbula. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1995.
______. O último voo do flamingo. Lisboa: Editorial Caminho, 2000.
______. Um rio chamado tempo, uma casa chamada terra. Lisboa: Editorial Caminho, 2002.
______. A varanda do frangipani. 2ª ed. Lisboa: Editorial Caminho, 1996.
______. Vinte e zinco. Lisboa: Editorial Caminho, 1999.
______. Vozes anoitecidas. Lisboa: Editorial Caminho, 1987. (Uma terra sem amos, vol. 34).
GONÇALVES, Perpétua. “Linguagem literária e linguagem corrente no português de Moçambique”. In Revista Estudos Portugueses e Africanos, vol. 33/34, Campinas, UNICAMP/IEL, p. 113-121, 1999.
______. “Para uma aproximação língua-literatura em português de Angola e Moçambique”. In Via Atlântica, n. 4, p. 212-223, São Paulo, DLLCV/USP, 2000.
LEITE, Ana Mafalda. Oralidades & escritas nas literaturas africanas. Lisboa: Vega, 1998.

MACÊDO, Tania. “O rio e seus (dis) cursos em Rosa, Luandino e Mia Couto”. In: ______. Angola e Brasil – estudos comparados. São Paulo: Arte & Ciência, 2002, p. 95-105.
MAQUÊA, Vera. Entrevista com Mia Couto. Cópia gentilmente cedida pela autora, em
vias de publicação, Maputo: dezembro de 2003.
SECCO, Carmen Lúcia Tindó Ribeiro. A magia das letras africanas. Ensaios escolhidos
sobre as Literaturas de Angola e Moçambique e alguns outros diálogos. Rio de Janeiro: ABEGraph Editora e Barroso Produções Editoriais, 2003.
SILVA, Ana Cláudia. Um café com Mia Couto. Entrevista com Mia Couto. São Paulo, 1997. Fotocópia gentilmente cedida pela autora e entrevistadora, Ana Cláudia da Silva.
TEIXEIRA, Eduardo Araújo. A reabilitação do sagrado: epifania e morte nas Estórias de
Mia Couto e Guimarães Rosa. Ensaio em vias de publicação em cópia fornecida gentilmente pelo autor.

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