“A Crise do Islã: Guerra Santa e Terror Profano”, Bernard Lewis

Resenha crítica
LEWIS, Bernard. A Crise do Islã: Guerra Santa e Terror Profano. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003. (pp.110 – 149)

Diego de Cambraia Martins
Aluno do 3º ano de Graduação do Curso de História da UNIFESP

Resenha realizada como parte da avaliação da UC Eletiva “De amor e trevas: modernidades, terrorismos e utopias” ministrada pela Profa. Dra. Ana Lúcia L. Nemi e pelo Prof. Dr. Rafael Ruiz do curso de história da Universidade Federal de São Paulo.

UNIFESP
Guarulhos – 2009

O que a América enfrenta hoje é uma porção muito pequena do que enfrentamos há décadas. Nossa nação islâmica tem sentido a mesma coisa há mais de 80 anos, a humilhação e a desgraça, seus filhos são mortos e seu sangue é derramado, suas santidades dessacralizadas.(1)
Osama Bin Laden

O presente trabalho tem por objetivo resenhar os capítulos 7, 8 e 9 do livro A Crise do Islã: Guerra Santa e Terror Profano de autoria de Bernard Lewis, nascido em Londres no ano de 1916. Acadêmico britânico de origens judaicas é professor emérito de estudos orientais da Universidade de Princeton. Especializou-se pela Universidade de Paris na história do Islamismo e sua interação com o Ocidente. O núcleo da obra aqui analisada foi um artigo publicado em uma revista semanal de nome The New Yorker, em novembro de 2001, uma clara repercussão aos atentados terroristas de 11 de setembro de 2001.
Pretendo aqui estabelecer um debate entre a obra, aqui resenhada, e duas temáticas principais com a finalidade de fomentar um trabalho crítico em relação à obra de Lewis. Essas temáticas trabalhadas são: a experiência de viver entre fronteiras de utopias distintas no Oriente Médio; e Terrorismo de Estado no mundo contemporâneo: exemplificações e problematizações.
O autor começa discutindo o fracasso da modernidade no mundo muçulmano, ou melhor, começa aludindo o mundo muçulmano com um fracasso da modernidade. Lewis tenta demonstrar que boa parte dos países muçulmanos se encontra em uma situação econômica deplorável, comparada aos países do Ocidente, e que governos tirânicos são o modelo de governação comum a esses países. Para o autor:

Ambos os problemas são atribuídos, especialmente por aqueles interessados em desviar a atenção de si mesmos, aos Estados Unidos – o primeiro [situação econômica desfavorável], à dominância e exploração econômicas norte-americanas, […] superficialmente disfarçada de “globalização”; o segundo, ao apoio norte-americano a muitos dos chamados tiranos muçulmanos que servem a seus propósitos. (LEWIS, 2003, p. 110)

Para Lewis essa é uma das forças motivacionais, que fazem dos Estados Unidos um alvo constante do discurso dos grupos terroristas, como o principal e maior inimigo do mundo islâmico e “A supremacia norte-americana, como o Oriente Médio a vê, indica para onde dirigir a culpa e a hostilidade resultantes” (LEWIS, 2003, p. 110). Com isso, o autor apresenta uma série de indicadores das Nações Unidas e do Banco Mundial para demonstrar as disparidades entre os países ocidentais e os do mundo muçulmano – aqui inclusos países que não estão no Oriente Médio, como Indonésia e Brunei.
Lewis tenta passar uma visão catastrófica do mundo muçulmano, mostrando que tanto economicamente, quanto politicamente o processo de modernização foi um tremendo fracasso, com exceção da Turquia, que de certa forma consegue manter as suas instituições democráticas aos moldes ocidentais funcionando. Isso proporcionou uma série de análises diferentes que provocaram um entrave entre as utopias modernizadoras e tradicionalistas, pois

Para alguns, a resposta é mais e melhor modernização, alinhando o Oriente Médio com o mundo moderno e em vias de modernização. Para outros, a modernidade é, por si só, o problema e a fonte de todas as misérias. (LEWIS, 2003, p. 114)

O autor apresenta que esta tensão – juntamente com os fatores políticos-econômicos – cria um clima de instabilidade interna, onde a insatisfação para com a situação díspar entre o Oriente Médio e o Ocidente se dirige aos próprios governos, e em seguida a quem mantém esses governantes, ou seja, os Estados Unidos. Devido à isso que Lewis propõe a idéia de que

[…] todos os terroristas identificados nos ataques de 11 de setembro em Nova York e Washington tenham vindo da Arábia Saudita e do Egito, isto é de países cujos governantes são considerados amigos dos Estados Unidos. (LEWIS, 2003, p. 114)

O autor praticamente ignora a explicação mais lógica, inclusive utilizada pelos membros da Al-Qaeda “que terroristas de países amigos têm menos dificuldades para conseguir vistos norte-americanos” (LEWIS, 2003, p.114). Lewis prefere uma análise teleológica, em que países muçulmanos que têm governos alinhados com a política externa norte-americana, o grau de hostilidade aos Estados Unidos é muito maior, pois estes são considerados culpados diretos pela manutenção de regimes, que o autor denomina como tirânico. Ou seja, neste capítulo Lewis não faz uma menção à atuação política imperialista e, sobretudo beligerante dos Estados Unidos no Oriente Médio, e muito menos às políticas de ocupação israelense na Palestina – apoiadas pelos Estados Unidos.
No capítulo 8 denominado A Aliança entre o Poder Saudita e o Ensinamento Wahhabi, Lewis fala do surgimento de inúmeros movimentos que tem como objetivo rechaçar a modernidade ocidental e a propagação de um Islã purificado. Dentre todos esses movimentos

O mais importante desses foi, sem dúvida, aquele conhecido com wahhabismo, palavra derivada do nome de seu fundador. Muhammad ibn ‘Abd AL-Wahhab (1703-1792) foi um teólogo da região de Najd, na Arábia, governada por xeques da Casa de Saud [daí o termo Saudita] […] Seu objetivo declarado era retornar ao puro e autêntico islã do Fundador, removendo e, onde necessário, destruindo todos os posteriores acréscimos e distorções. (LEWIS, 2003, p. 116)

Esse movimento foi adotado pelos xeques da Casa de Saud, que promoveram uma série de incursões pela Arábia e por regiões mais distantes do Golfo Pérsico. A mais importante, sem dúvidas, foi a tentativa da tomada das cidades sagradas do islamismo: Meca e Medina – no início do século XIX – até então sob domínio do Império Otomano, cujo sultão era “acusado […] como apóstata da fé muçulmana” (LEWIS, 2003, p. 116). A tentativa de tomada das cidades sagradas fracassou, e o emir Saud foi enviado e decapitado em Istambul. Para Lewis “o Estado saudita deixava de existir, mas a doutrina wahhabi sobreviveu” (LEWIS, 2003, p. 117). Do ponto de vista historiográfico, não podemos considerar que existia um Estado saudita, pois Estado é uma concepção ocidental. Concepção essa que podemos considerar uma utopia.
O surgimento do wahhabismo foi uma resposta ao avanço da cristandade e a corrupção dos costumes islâmicos, pelos próprios muçulmanos que vinham de diversas partes da Europa em peregrinação às cidades sagradas, que de certa forma tinham adquirido alguns costumes ocidentais, traindo o islamismo original do Fundador. Para corroborar sua argumentação, de que a hostilidade e a ira dos povos árabes, nos dias de hoje, na verdade são direcionadas aos governantes corruptores da herança islâmica e que os Estados Unidos se tornam alvos por apoiarem esses governos, Lewis considera que essa é uma tradição de longa data, pois o alvo mais imediato dos adeptos do wahhabismo eram justamente os corruptores do islamismo original. O que ele quer provar, mais uma vez fazendo uma análise teleológica, é que os movimentos terroristas de hoje são heranças diretas destes movimentos com origem no século XIX.
No primeiro quartel do século XX, surgiu uma nova aliança entra a Casa de Saud e os wahhabistas. Nesse novo momento, as aspirações sauditas foram bem sucedidas, pois o xeque ‘Abd al-‘Aziz Ibn Saud, se aproveitando da crescente influência inglesa na Península Arábica, amarrou uma série de acordos com a Inglaterra, e com a queda do Império Otomano, garantiu o controle de grande parte do território da Península, mas principalmente das cidades sagradas.

Enquanto isso, Ibn Saud seguiu rapidamente com a reorganização e reestruturação de seu vasto reino e, em setembro de 1932, proclamou um novo Estado unitário, a ser chamado Reino da Arábia Saudita. (LEWIS, 2003, p. 120)

O fato mais marcante deste novo momento saudita foram os acordos com a empresa Standart Oil, com sede na Califórnia. O empreendimento praticamente centuplicou a extração do petróleo em um período de trinta anos(2) . Isso implicou em um aumento visceral de recursos, o que permitiu mudanças estruturais e do modo de vida no reino saudita, tornando-se assim o país com maior influência no mundo do islã. Neste sentido, o wahhabismo tornou-se “[…] doutrina oficial, imposta pelo Estado de um dos mais influentes governos de todo o islã” (LEWIS, 2003, p. 122). Com os recursos financeiros a disposição, os wahhabistas poderiam tranquilamente disseminar sua doutrina, e foi o que fizeram.
Promoveram um sem número de instituições de ensino – as madrasas – não só na Árabia, mas em diversos países europeus, como a Alemanha. Nos países laicos do ocidente, não há nenhuma supervisão por parte do governo, do ensino religioso nas escolas; isso favoreceu a difusão da doutrina Wahhabi entre os muçulmanos de todo o mundo. Para tentar explicar, Lewis faz uma comparação grosseira e anacrônica entre a doutrina Wahhabi e a Ku Klux Klan. Na comparação hipotética, o autor supõe

[…] que a Ku Klux Klan […] ganhe total controle do Estado do Texas, de seu petróleo e, portanto de suas receitas do petróleo, e, tendo feito isso, use esse dinheiro para estabelecer uma rede de escolas e universidades bem-dotadas por toda a cristandade, mascateando seu tipo peculiar de cristianismo. [grifo meu] (LEWIS, 2003, p. 123)

Em primeiro lugar, qualquer historiador que se preze, jamais faria uma comparação desse tipo, pois as motivações da Ku Klux Klan não eram religiosas, mas sim étnicas, diferentemente das motivações dos grupos islâmicos. Isso demonstra todo o preconceito contido no texto de Lewis.
Com os muitos recursos trazidos pelo petróleo, o processo de modernização aos moldes do Ocidente era eminente. Como visto, esse processo fomentou tensões sociais e novos grupos foram se tornando adeptos da doutrina Wahhabi. Além disso, a desnecessidade de arrecadação de impostos – devido a estes recursos da extração petrolífera – cerceou a formação de instituições democráticas de representação, tornando a participação política limitada, trazendo ainda mais insatisfações. Neste momento, houve um processo de radicalização das doutrinas, que grosso modo, foram denominadas fundamentalistas. Lewis rechaça essa denominação, pois

Originalmente, era um termo protestante norte-americano usado para designar certas igrejas protestantes que diferiam, em alguns aspectos, das igrejas convencionais. As duas principais diferenças eram a teologia liberal e a leitura crítica da Bíblia, […] (LEWIS, 2003, p. 124)

Para Lewis apesar de no passado a teologia liberal ser bastante recorrente, não há no presente nenhuma alusão a ela, e muito menos uma leitura crítica do Alcorão. Entretanto o termo foi tão difundido, que hoje é comum encontrar alusões a ele em árabe, persa e turco. Sendo assim, fundamentalismo virou sinônimo de radicalização, o que é bastante atraente para todos aqueles que desejavam uma subversão do islã degradado pelos governantes tiranos, restaurando a shari’a. De acordo com o autor

De sua perspectiva [dos fundamentalistas árabes], o conflito básico não é contra o intruso ocidental, mas contra o traidor ocidentalizador em casa. Seus inimigos mais perigosos, segundo vêem, são os muçulmanos falsos e renegados que governam os países do mundo islâmico e que importaram e impuseram costumes infiéis aos seus povos. (LEWIS, 2003, p.126-127)

Assim, o capítulo 9 como o próprio nome diz vai apresentar as causas d’A Ascensão do Terrorismo. O autor começa discutindo o fato de que a maioria dos terroristas atuais serem muçulmanos, o que é um argumento discutível, pois não há estatísticas oficiais quanto a esses números. Boa parte destes terroristas vem de grupos extremistas, como a Al Qaeda, por exemplo. As ações terroristas, segundo Lewis, são legitimadas e santificadas por esses grupos, através de interpretações discutíveis do Alcorão.
Após essa apresentação, Lewis aborda o conceito de guerra para o mundo islâmico. Para ele, não difere muito dos cristãos ou judeus, mas apresenta uma peculiaridade:

Enquanto os muçulmanos, talvez com mais freqüência que os cristãos [grifo meu], fizeram guerra contra os seguidores de outros credos visando trazê-los para o âmbito do islã, os cristãos – com a notável exceção das cruzadas – tendiam mais a lutar guerras religiosas internas contra aqueles que viam como cismáticos ou heréticos. (LEWIS, 2003, p. 113)

Aqui observo mais um problema, pois o autor demonstra não ter certeza ou dados confiáveis sobre o que está afirmando. Para tentar corroborar sua tese, Lewis vai buscar essa tendência ao terrorismo, com bases religiosas, em um grupo social do século XII denominados Hashishiyya e que segundo o autor é de onde deriva a vocábulo assassino. Em outra obra Os Assassinos – Os Primórdios do Terrorismo no Islã(3) , Lewis traça novamente uma análise teleológica, onde aponta esse grupo social como a raiz do terrorismo islâmico.
Os Hashishiyya, segundo minha interpretação através da leitura do próprio Lewis – na obra supracitada – era uma espécie de exército regular, treinado exclusivamente para a defesa desses grupos sociais que ficavam isolados nas montanhas da Síria e da Palestina. Uma “tropa de elite” de soldados altamente treinados desde a tenra infância, para defender as fortificações e também ao islamismo original. Apesar de na obra resenhada, Lewis (LEWIS, 2003, p. 134) apenas apontá-los como predecessores “de muitos dos chamados terroristas islâmicos”, na obra que trata especificamente desse grupo, percebemos que sua atuação vai muito além da defesa do islamismo do Fundador. Funcionavam como um exército regular, e como os “nobres cruzados” estavam dispostos a sacrificar sua vida pela causa.
Em um primeiro momento, é bastante anacrônico por parte de Lewis referir os Hashishiyya como predecessores do terrorismo no Islã. E isso se dá pelo simples fato de que o conceito de terrorismo que temos nos dias de hoje, não existia no século XII; nem o termo, inclusive. Em editorial para o site do Governo Federal, Maria Elizabeth Guimarães Teixeira Rocha(4) , define:

Etimologicamente, terrorismo remete ao Reino do Terror desenrolado na Revolução Francesa em 1793-94, no período do Diretório, dominado por Danton, Robespierre e Marat. No final do século XIX e início do século XX, houve o recrudescimento do movimento anarquista nos Estados Unidos da América e Europa, com os radicais assassinando vários líderes políticos, inclusive o Arquiduque Francisco Ferdinando da Áustria, fato que provocou o início da I Guerra Mundial. Em meados do século XX, os movimentos de libertação nacional contra os regimes coloniais valeram-se de mecanismos reputados como atos terroristas. O principal expoente de tais movimentos foi a Frente de Libertação Nacional (FNL), que durante a guerra de libertação da Argélia, em 1956, utilizou técnicas consideradas a arché do terrorismo moderno, tais como o bombardeamento de civis franceses. Seu sucesso inspirou os bascos, palestinos e irlandeses a adotarem medidas semelhantes. Pode-se dizer que o terrorismo é um fenômeno da era pós-colonial […](5)

A partir da definição de Rocha, fica evidente que o termo terrorismo só surgiu na última década do século XVIII, e da maneira como entendemos hoje, no início do XX. Ou seja, quando Lewis remonta os terroristas atuais aos Hashishiyya está incorrendo no anacronismo, pois tenta interpretar um passado através de um valor que ainda não existia. O autor ainda aponta que “o século XX trouxe uma renovação de tais ações no Oriente Médio, embora de tipos diferentes e com outros propósitos” (LEWIS, 2003, p. 136). A partir dessa formulação, a obra mostra que a derrota na Guerra dos Seis Dias intensificou ainda mais as ações terroristas.
Fazendo essa digressão aos Hashishiyya, me parece que Lewis quer relacioná-los com outras organizações de cunho islâmico como a OLP, os Irmãos Muçulmanos, o Talibã e por fim a Al-Qaeda. A atuação desses grupos – a partir da mobilização religiosa – vai ser descrita por Lewis no decorrer do seu texto, culminando no que destaca como auge da ação terrorista islâmica que foi o atentado de 11 de setembro de 2001. Na sua concepção a “declaração de guerra [de Osama Bin Laden] contra os Estados Unidos marca a retomada da luta pela dominância religiosa do mundo, iniciada no século VII” (LEWIS, 2003, p. 148).
Observando atentamente a epígrafe deste trabalho, podemos observar no discurso do próprio Osama Bin Laden, que a causa da ação dos terroristas vai muito além da versão reducionista de Lewis. O autor praticamente relega a segundo plano a ação ostensiva norte-americana no Oriente Médio, desviando o foco da ira muçulmana apenas aos “governantes tirânicos” apoiados pelos Estados Unidos. Um trabalho sério sobre a questão do terrorismo no Oriente Médio tem de levar em consideração, o terrorismo de Estado norte-americano.
De acordo com as discussões ocorridas durante o semestre, podemos definir, grosso modo, o terrorismo de Estado como uma metodologia ilegítima utilizada pelo governo dos Estados Unidos para fomentar o pânico na sua população, objetivando um inimigo em potencial: os árabes, especialmente os muçulmanos. Visando seus interesses de corroborar uma hegemonia global, dominando locais estratégicos como o Oriente Médio, é de suma importância incutir o medo na população norte-americana, que os árabes são inimigos potencialmente perigosos a fim de legitimar suas ações ostensivas contra países de população inimiga. O problema da obra de Lewis, neste sentido, é não levar em conta que a agressão norte-americana no Oriente Médio, onde políticas beligerantes apoiadas pela maioria da população – através de técnicas como o terrorismo de Estado – vai gerar uma reação por parte do agredido, que se utiliza de ações terroristas por não contar com tecnologia bélica suficiente para uma guerra, no sentido literal do termo.
Isso pode ser observado não apenas na fala de Bin Laden na epígrafe, mas também em filmes como Paradise Now. Em muitas falas, observamos os personagens justificando a ação suicida como única alternativa contra a ocupação israelense, pela disparidade militar, tecnológica e financeira entre muçulmanos – sobretudo, os Palestinos – e israelenses, que contam com subsídios financeiros norte-americanos, segundo Edward Said na sua obra Cultura e Política, da ordem de 2,5 bilhões de dólares por ano, mais do que qualquer outro Estado da Federação (SAID, 2003, p. 124).
A questão da ocupação Israelense e sua ação ostensiva na Faixa de Gaza e na Cisjordânia também não são levadas em conta. Muito menos ainda, as ações terroristas sionistas antes da formação do Estado de Israel. Os atentados que ocorrem contra Israel, são o preço a ser pago pelo encravamento de um Estado-Nação com uma utopia completamente diferente dos países limítrofes. Como o próprio Paradise Now nos mostra, a ação Palestina contra Israel visa desautorizar a ocupação, que segundo André Gattaz em A Guerra da Palestina, provocou a expulsão de mais de 750.000 palestinos de suas terras, que migraram para países vizinhos, ou foram sujeitados a assentamentos, que na verdade nada deixam a desejar aos campos de concentração nazista (GATTAZ, 2003, p.119).
Além de uma obra anacrônica e teleológica, a obra de Lewis, também pode ser considerada determinista. Procura fazer uma análise de que a ação terrorista é uma concepção inata do mundo islâmico, ao querer relacionar, por exemplo, os Hashishiyya aos grupos terroristas atuais. O terrorismo é uma prática comum à todas as sociedades, sejam elas islâmicas ou não. Como já observamos anteriormente, o terrorismo aos moldes atuais vêem da ação de grupos insatisfeitos com o domínio austro-húngaro nos Bálcãs, que resultou no assassinato do arquiduque Francisco Ferdinando em Sarajevo, e das lutas anti-coloniais na África. Foi praticado até poucos anos atrás na Europa, por grupos separatistas como o basco, ETA e o irlandês, IRA. E mesmo os sionistas, praticavam ações terroristas antes da criação do Estado de Israel, e para exemplificar esse fato, utilizo do exemplo dado por Gattaz da aldeia de Deir Yassin, onde os grupos terroristas sionistas Irgun e Stern, com apoio do Haganah(6) , ignoraram o acordo de não-agressão feito entre os judeus e os líderes religiosos da aldeia e promoveram

[…] a mais brutal selvageria, e embora até hoje a literatura sionista e israelense divida-se quanto aos seus motivos e conseqüências, há unanimidade entre os historiadores árabes e ocidentais, e entre observadores de organizações humanitárias, de que o que houve em Deir Yassin foi uma matança deliberada e cruel da população civil com o objetivo de atemorizar os habitantes de toda região e provocar sua fuga. (GATTAZ, 2003, p. 111)

Na minha forma de analisar o terrorismo islâmico, acredito que a análise de Lewis não contempla de maneira satisfatória todas as problemáticas envolvidas na questão. Sofre de “obsessão das origens”, como bem apontou Marc Bloch em Apologia da História (BLOCH, 2001, p. 56) os historiadores que buscam no passado, explicações para o que ocorre no presente. Lewis tenta explicar o terrorismo islâmico de hoje através de um passado que não reflete em nada as atuais conjunturas mundiais. Aplica uma visão reducionista ao afirmar que a ação terrorista de hoje é uma luta pela dominância religiosa por parte dos islâmicos, ignorando quase por completo as conseqüências do que chama de globalização, mas que na verdade é a atuação ostensiva norte-americana no Oriente Médio em busca da manutenção de sua hegemonia global. Não leva em consideração também, a ação terrorista sionista antes da criação do Estado judeu na Palestina e a ação ostensiva do exército israelense após sua criação.
Com isso sua obra soa por vezes preconceituosa, ao atribuir o terrorismo como uma ação inata do mundo islâmico, desde os tempos medievais. Não é. É uma ação disseminada por todo o mundo, seja este de utopia ocidental, seja muçulmana. O fato de a ação islâmica ser justificada através da religião, acredito ser uma maneira de buscar uma unidade através do que boa parte dos árabes têm em comum que é o Islã, com a finalidade de combater o inimigo comum que o agride constantemente. Da mesma maneira que os bascos ou irlandeses o faziam, quando proclamavam uma identidade própria para lutar contra seus inimigos. Em sua “obsessão pela origem” do terrorismo islâmico, Lewis deixa passar despercebido uma série de fatores que explicam de maneira mais concreta o terrorismo. O deslize do autor se explica na célebre colocação de Bloch:

Em suma, nunca se explica plenamente um fenômeno histórico fora do estudo de seu momento. Isso é verdade para todas as etapas da evolução. Tanto daquela que vivemos como das outras. O provérbio árabe [bastante significativo dentro deste trabalho desenvolvido] disse antes de nós: “Os homens se parecem mais com sua época do que com seus pais.” (BLOCH, 2001, p. 60)

BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR

BLOCH, Marc. Apologia da História ou O Ofício do Historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

GATTAZ, André. A Guerra da Palestina: da criação do Estado de Israel à Nova Intifada. São Paulo: Usina do Livro, 2003.

LEWIS, Bernard. Os Assassinos: os primórdios do terrorismo no Islã. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.

ROCHA, Maria Elisabeth Guimarães Teixeira. O Terrorismo e a Nova Ordem Internacional. Revista Jurídica. Brasília, v. 8, nº 79, jun-jul de 2006. Disponível em:
.
Acesso em 29/11/2009

SAID, Edward. Cultura e Política. São Paulo: Boitempo, 2007.

FILMOGRAFIA

Paradise Now
França / Alemanha / Israel / Holanda
Diretor: Hany Abu-Assad
2005 – 90 min.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
(1) Discurso de Osama Bin Laden após os primeiros ataques do exército americano no Afeganistão, após os ataques de 11 de setembro. Esse discurso foi publicado na integra no jornal Folha de São Paulo, no dia 08 de outubro de 2001.
(2) Afirmação com base nos dados apresentados pelo próprio autor, na página 121.
(3) Ver as referências completas na Bibliografia Complementar na página 16.
(4) Ministra do Superior Tribunal Militar, foi nomeada e empossada em março de 2007
(5) Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/revista/rev_79/Editorial/Editorial.htm
(6) Haganah era uma milícia judaica, de caráter sionista que viria a se tornar o exército israelense após a fundação do Estado de Israel. Em hebraico, significa defesa.

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