“De amor e trevas”, Amós Oz

Resenha crítica
OZ, Amós. De amor e trevas. São Paulo: Cia das Letras, 2005.

Mariane Soares Gennari
Aluna do 3º ano de Graduação do Curso de História da UNIFESP

Resenha realizada como parte da avaliação da UC Eletiva “De amor e trevas: modernidades, terrorismos e utopias” ministrada pela Profa. Dra. Ana Lúcia L. Nemi e pelo Prof. Dr. Rafael Ruiz do curso de história da Universidade Federal de São Paulo.

Guarulhos, 2009

INTRODUÇÃO

A leitura da obra autobiográfica de Amós Oz, De amor e trevas, é bastante elucidativa quando buscamos compreender as origens dos atuais conflitos que permeiam a região do Oriente Médio. A criação do Estado de Israel e suas consequências para os povos palestinos, para os outros árabes e, em especial para os judeus podem ser observadas a partir do olhar atento de um escritor que nasceu e cresceu em Jerusalém, vivenciando, durante sua infância, o significado desse novo Estado e os amargos episódios decorrentes dele.
Nesse sentido, dois termos podem ser analisados em relação a essa obra para compreendermos a vida dos homens no mundo contemporâneo: utopia e terrorismo. Amós Oz nos apresenta uma obra pessoal e, ao mesmo tempo, historicamente valiosa, cujas percepções e interpretações contribuem para o nosso entendimento de diferentes utopias convivendo em um mesmo território e das diversas traduções que ambos os lados fazem sobre o que acreditam ser direito histórico sobre a região, gerando, dessa forma, um conflito onde o terrorismo encontra espaço para responder a uma força que se caracteriza por ser expansionista, o imperialismo.
Amós Oz, ao escrever uma autobiografia em forma de romance, não pretende que seus leitores tomem uma posição ou descubram quem ele é. Sua intenção é que sintam algo próximo ao que ele mesmo sentiu, na condição de ser humano. Ele descreve sua infância, como filho de pais judeus, aterrorizados pelo anti-semitismo da década de 1940, procurando, ainda assim, defender os valores da religião na cidade onde viviam, Jerusalém. Assim, o autor busca mostrar os confrontos entre seus jovens pensamentos sobre os conflitos contemporâneos e suas percepções sobre o povo árabe que, desde cedo, contradiziam os valores religiosos pelos quais havia sido educado.
A obra traz à tona diversos questionamentos sobre as origens e causas do conflito. Afinal, há um culpado? Quem seria? A quem devemos responsabilizar pelas mortes e pela crescente rivalidade entre Israel e Palestina? A criação do Estado de Israel foi desejo interno aos valores judaicos, referentes à religião e à sua história ou sofreu influências externas, da expulsão sofrida na Europa? Como os palestinos reagem a essa divisão de seu território? Qual o significado da criação de um Estado independente em uma região já habitada por uma população? Afinal, qual a relação que o povo palestino tem com a reivindicação sionista? A postura internacional, que se pretende neutra, representada pela Organização das Nações Unidas, está levando em consideração a história de ambos os povos?
Muitas das respostas para essas questões podem não existir ou não serem fáceis de encontrar, mas, também, podem ser respondidas abertamente pelos que defendem um ou outro lado desse conflito. No entanto, o não posicionamento também possui um significado, o qual deve ser investigado. De amor e trevas nos traz reflexões para que possamos tentar responder algumas dessas perguntas, fazendo-nos sentir aquilo que é passível de sentir o ser humano, frente às suas próprias ações, entre crenças e suas contradições.

O AUTOR

Amós Oz nasceu em 1939, em Jerusalém. Internacionamente reconhecido pelos seus diversos livros, é um dos maiores escritores de Israel. Destaca-se por ser uma figura pública importante em seu país. Atualmente é professor na Universidade Ben Gurion.(1)
Oz, ao escrever De amor e trevas, deixa claro nas primeiras páginas que não “há história que não seja confessional”(2) e, portanto, o leitor não deve se preocupar em descobrir o que realmente ele quis dizer ou o que aconteceu, pois, ao fazer isso, torna-se um mau leitor, tentando o tempo todo chegar à conclusão de que todos são iguais. Para Amós Oz, a obra não deve ser relacionada à vida do seu autor, mas sim à do próprio leitor, que deve encontrar nela respostas sobre si mesmo, conectando os acontecimentos de determinado personagem com os acontecimentos de sua própria vida, e não da vida do autor.(3)
Portanto, apesar de o livro tratar-se de um romance autobiográfico, não devemos nos questionar sobre a veracidade dos fatos, mas sim, de nossas próprias vidas enquanto seres humanos que se relacionam. Saber quem exatamente é o autor e o que fez não deve ser prioridade. Mas, como o próprio Amós Oz sugeriu, seremos bons leitores se, após a leitura, perguntarmos a nós sobre nós mesmos.

A OBRA E A EXPERIÊNCIA DO CONFLITO ISRAEL-PALESTINA

De amor e trevas nos possibilita ter contato com as memórias e experiências vividas por Amós Oz no período em que o mundo discutia a validade em se contruir o Estado de Israel como um direito dos judeus. O Estado foi criado em 1948 e o autor-personagem nos revela com detalhes as conversas, os pensamentos e sentimentos que ele e sua família possuíam como moradores da cidade de Jerusálem. Descreve, ao longo do livro, a relação que eles tinham com os vizinhos e familiares, fossem eles árabes ou judeus.
A crença do menino judeu numa possível relação pacífica entre os dois povos permanece definida nas diversas vezes em que demonstra precisar de alguns minutos para convencer os árabes palestinos de que os judeus tinham um direito de preempção sobre aquela terra, explicado pela sua história.
No entanto, há momentos em que há nítida percepção de que a população que vive ali também possui uma história e, buscava, assim como ele e sua família, viver dignamente no lugar onde haviam nascido e crescido. Era lá, naquele território, que muitas das famílias árabes palestinas, também, haviam construído relações sociais, religiosas, políticas, etc. cuja história podia ser contada a quem quisesse ouvir.
A cena ocorrida com a menina Aysha e seu irmão é um desses momentos em que se percebe os inúmeros questionamentos que Amós faz referentes ao relacionamento entre árabes e judeus e suas tentativas de legitimar a sua história em detrimento da história do outro para conseguir o direito sobre o território. Em especial, o discurso sionista de “retorno à Terra de Israel” e o direito histórico que acreditam possuir sobre a região.
Amós Oz pergunta-se, após o pronunciamento oficial de que o Estado de Israel poderá ser criado, o que estaria fazendo a menina e sua família, se ainda viveriam no mesmo bairro em que os conheceu ou se ainda se lembrariam dele, se estavam com raiva pelo que causou ou, talvez, se haviam o esquecido. Suas dúvidas não estão apoiadas na rivalidade entre os povos, mas sim em preocupações humanas que, em determinado momento, despreza as diferenças para perceber que a sua família e a de Aysha projetam igualmente uma vida decente.
A experiência adquirida em conviver em um mesmo território com árabes se mostra reveladora para o menino Amós em várias passagens da obra. Ao mesmo tempo em que busca respostas para as causas do conflito, tenta descobrir quem ele mesmo é, confrontando seus sentimentos e valores já enraizados com as percepções do seu próprio olhar.
O garoto cresceu em um apartamento pequeno, cercado de livros por todos os lados, cuja importância dada por seus pais ficou clara na formação de Oz enquanto escritor e professor de literatura. Ele aprendeu a se apaixonar pelos livros ainda durante a infância.
Além de possuir uma característica de romance, De amor e trevas apresenta um caráter de denúncia. A influência ocidental mostra-se presente nas relações diplomáticas entre Israel e Palestina, no entanto, a responsabilidade e o reparo pelo holocausto são esquecidos pelo Ocidente. Amós Oz buscou relembrar qual era a preocupação do mundo com a comunidade judaica no pós-II Guerra Mundial:

“… Assim, pelo menos, alguns de nossos amigos e vizinhos encorajavam a si próprios, no limiar desse estranho e ameaçador outono, com a idéia de que pelo menos restava o consolo de que, se os árabes não queriam nos ver por aqui, os povos europeus também faziam questão de não nos ver por lá, voltando à Europa para enchê-la novamente de judeus, e considerando que os povos europeus eram muito mais poderosos do que os árabes, quem sabe ainda não restava uma chance de continuarmos por aqui. Iriam obrigar os árabes a engolir o que a Europa queria vomitar”(4) .

O conceito de Estado-nação foi uma idéia criada pelas potências ocidentais que procuravam legitimar a política expansionista, agregando territórios diversos sobre a dominação de seus Estados. Esse fenômeno é o imperialismo.
A Europa, assim como os Estados Unidos, “lavaram suas mãos” em relação aos danos que o nazismo causou à população de judeus. A criação do Estado de Israel fora de seus territórios ia ao encontro do desejo sionista, e, portanto, era bastante conveniente aos países vencedores da II Guerra Mundial. Para o movimento sionista, os judeus também tinham direito a um “Estado-nação” e se apoiaram nesse ideal para dar legitimidade à reivindicação de um Estado judaico na região da Palestina perante o Ocidente.
Dessa forma, quem acabou por sofrer as consequências foi a população que vivia na região onde deveria existir o Estado de Israel. A Palestina foi afetada gravemente, sem, no entanto, abalar os territórios da Europa e dos Estados Unidos. O conflito se iniciou no mesmo momento em que a decisão foi aprovada. Confrontos e mortes entre as populações fazem parte dos noticiários até hoje e, ainda não deixaram de afetar as populações que lá vivem. Em particular, as famílias árabes que sobrevivem, muitas vezes o fazem, em campos de refugiados, uma vez que foram expulsas de suas casas.
O governo da Palestina tem se utilizado do mesmo conceito de “Estado-nação” criado pelo Ocidente para resistir à perda de seu território para outro Estado independente cuja defesa hoje é mantida pela força imperial norte-americana.
Sem possuir a mesma força e poder das potências ocidentais, organizações palestinas e árabes encontraram uma forma de resistência: o terrorismo, que assim como uma força imperial, não possui limites e nem fronteiras. Não há, de fato, uma organização e seu sucesso deve-se ao funcionamento das células mortas, ou seja, um atentado terrorista não está associado a outro, no momento em que ele acontece, sua organização é desfeita, para que não seja possível encontrar ligações entre os diferentes atentados, e portanto, dificultando a busca por um responsável. O terrorismo encontrou espaço na estrutura estabelecida da política imperialista, tornando-se uma fissura do sistema, já que não é possível culpar uma pessoa ou organização, sem poder condená-la ou a punir numa tentativa de se fazer justiça.
O terrorismo tem sido a única forma de luta efetiva encontrada pelos árabes muçulmanos cuja utopia de felicidade não está no plano terrestre da vida, e sim, após ela, no paraíso. Ao morrerem por uma causa considerada justa e nobre (Jihad), defendendo o Islã, garantirão a felicidade fora da Terra. Uma utopia de um “mundo encantado” e tradicional onde a idéia iluminista de felicidade na Terra não encontra espaço, já que na sociedade árabe muçulmana o mundo da política não está separado do mundo espiritual como definiu o iluminismo e, portanto, as ações individuais estão atreladas e se justificam pela religião.
Sendo assim, os acontecimentos observados e descritos por Amós Oz, ligados diretamente com a sua vida, podem nos levar a algum entendimento da causa dos confrontos contemporâneos que possuem em sua base diferentes utopias e influências externas significativas cuja força, por um lado, é caracterizada pelo imperialismo ocidental e, por outro lado, é traduzida em terrorismo, única força imperial encontrada para resistir.

CONCLUSÃO

Jerusalém, cidade onde viveu Amós Oz e sua família, foi e permanece sendo ambiente onde utopias distintas encontram-se e, constantemente, se confrontam. O surgimento do Estado de Israel acirrou o relacionamento entre os judeus que viviam na região e os árabes palestinos que, de um dia para o outro, tiveram que deixar suas casas para dar lugar à chegada de novos judeus que pretendiam se estabelecer naquele território, segundo a sua crença de “retorno à Terra de Israel”.
A falta de comprometimento da Europa em reparar os danos causados pelos nazistas aos judeus durante a II Guerra Mundial fortaleceu o movimento sionista que via na criação de um Estado independente, além de um direito histórico, a possibilidade de uma vida mais feliz, longe daqueles que lhes causaram sofrimentos. Por outro lado, o apoio norte-americano à Israel enfraqueceu as forças dos povos árabes, em especial os palestinos, que lutavam contra a manutenção desse Estado que havia os expulsado de suas moradias, encontrando no terrorismo possibilidades concretas de resistência.
De amor e trevas descreve com cuidado a percepção de uma criança frente a esses acontecimentos que mexeram com suas crenças e sentidos, levando-a a indagações em torno da necessidade do conflito, das mortes e da rivalidade.
Amós Oz nos leva, com a leitura de sua obra, a refletir e sentir as consequências trágicas desse confronto que, aparentemente, não possui responsáveis. Porém, o autor nos lembra a todo o momento que o que está em jogo são relações humanas. Afinal, como o próprio menino Amós indaga, ele e sua família deveriam comer qual tipo de queijo? O árabe porque era mais gostoso e mais barato e, além disso, poderiam provar que não havia motivos para cultivar o ódio entre os dois povos ou deveriam comer o queijo produzido no kibutz para não trair o movimento sionista?(5)
Portanto, mais que apresentar as suas percepções de infância e experiências em relação ao conflito e ao convívio com os árabes, Amós Oz procura, por meio de situações cotidianas, nos fazer sentir que a sua vida nada mais era que a de uma pessoa como as outras, cheia de crenças, desejos e esperanças.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
(1) OZ, Amós. De amor e trevas. São Paulo: Cia das Letras, 2005.
(2) Ibidem, pp. 40.
(3) Ibidem, pp. 40-45.
(4) Ibidem, pp. 383.
(5) Ibidem, pp. 25 e 26.

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