Representações do clero a partir da obra de Francisco de Goya y Lucientes: análise a partir de duas telas pertencentes ao Museu de Arte de São Paulo

Representações do clero a partir da obra de Francisco de Goya y Lucientes: análise a partir de duas telas pertencentes ao Museu de Arte de São Paulo
Prof. Dr. André Luiz Tavares Pereira
Curso de História da Arte – UNIFESP
Solicita-se, por favor, citar a fonte
Incluídas em uma série de quatro retratos de Goya hoje pertencentes ao Museu de Arte de São Paulo encontram-se dois grandes telas em tamanho natural de dois personagens capitais da crônica histórica espanhola na primeira década do século XIX. O primeiro deles é dedicado ao Cardeal Luís Maria de Borbón y Vallabriga (1777 – , arcebispo de Sevilha e, posteriormente, de Toledo, filho de Luís Antônio de Borbón e de Doña Maria Teresa de Villabriga, dita “La infanta” e cunhado de Godoy. O segundo, um impactante retrato do eclesiástico e historiador D. José António Llorente (1753 – 1823), autor de uma célebre e polêmica História Crítica da Inquisição Espanhola (1817), redigida durante seu exílio em Paris, iniciado em 1812, decorrente da partida dos franceses de quem então se aproximara. Goya privara do convívio de ambos os retratados em períodos distintos. Enquanto D. Luís Antônio, pai do Cardeal Villabriga e irmão de Fernando VII, havia sido o primeiro mecenas ligado à família real a encomendar ao artista uma obra sua, o jesuíta D. José A. Llorente era sabidamente seu amigo. O historiador-religioso chegaria a escrever comentários sobre as gravuras da série Caprichos e a reconstrução destas ligações intelectuais, do conteúdo de tais notas e da convivência com Goya parece-nos um dos pontos nevrálgicos desta investigação.
Temos, como se percebe, dois modelos distintos de curas e, portanto, de retratos: o primeiro ligado de modo claro à aristocracia e o segundo, poderíamos conjecturar, um padre humanista de cepa jesuítica, um historiador crítico da instituição a que pertence e exposto, para o bem e o mal, aos revezes provocados pelas forças políticas de seu tempo. Se o retrato de Villabriga nos possibilitará caminhar no sentido da compreensão das relações entre nobres e Igreja na turbulência daqueles anos, o de Llorente nos apresentará o jesuíta de inclinações liberais, um reformador do Santo Ofício que, pela ousadia de suas intervenções, acaba perseguido após a queda de seus benfeitores.
Os objetivos de nossa breve investigação são, como se seguem: a) a reunião de dados mais precisos sobre a biografia anagráfica de Goya, de maneira a compreender o significado da produção de ambos os retratos no conjunto da produção pictórica do artista. Isso deverá incluir a consulta aos acervos que conservem não só a produção mais conhecida do artista, mas, igualmente, o recurso a esboços, desenhos e eventuais manuscritos que registrem a elaboração das obras referidas; b) compreender de que modo estrutura-se a linguagem do retrato eclesiástico no contexto da produção pictórica de Goya, bem como perceber de que maneiras os membros do corpo eclesiástico, de um modo geral, são representados no conjunto de sua obra, c) coletar dados que permitam adensar a percepção que se têm das duas obras e elaborar uma síntese efetiva destas informações. O investigador propõe a realização de uma curadoria digital – uma exposição virtual – e a apresentação simultânea via cd-rom de obras presentes nos diversos acervos a que tiver acesso. Pensa-se, assim, em possibilitar a conexão efetiva das obras expostas no MASP com suas pares pertencentes a acervos espanhóis tornando mais direto as conexões entre as diversos itens coletados;d) a longo prazo, organizar um corpus de obras de arte e literatura que nos possibilitem compreender as chaves da representação da Igreja e seus membros no contexto da Península Ibérica entre as duas últimas décadas do século XVIII e as duas do século seguinte, e) Efetuar uma análise breve da produção intelectual de J. A. Llorente, em particular de sua obra Retratos Políticos de los papas, desde S. Pedro hasta Pio VII, inclusive (1822), texto em que oferece visões renovadoras sobre a história dos sumos pontífices católicos e de suas inclinações políticas, bem como de outras obras que nos pareçam significativas para a percepção de seu significado; f) por fim, dotar a UNIFESP de um conjunto essencial de dados que permitam a continuidade das investigações sobre o tema da representação artística do clero ibérico, oferecendo a alunos e membros da comunidade acadêmica subsídios para a condução de suas pesquisas.
Além dos acervos tradicionais ligados ao artista como o Museo Nacional del Prado ou a real Academia de San Fernando, propomo-nos a dividir nossas atenções entre as diversas bibliotecas especializadas em história eclesiástica e as bibliotecas associadas a museus. Os cortes cronológicos são fixados pela datação aventada para as pinturas do MASP (Villabriga: 1799 – 1800 e Llorente 1809 – 1813).

A acrescentar na lista publicações
PEREIRA, André Luiz Tavares, Acerca de Zeferino da Costa e da pintura da Igreja de Nossa Senhora da Candelária. Rotunda, vol.1 abril 2003. pp.32-38.
_______. Os retábulos das Irmandades de São Pedro dos clérigos: problemas de análise estilística e cronologia.. In: XXIV Colóquio do Comitê Brasileiro de História da Arte, 2004, Belo Horizonte. XXIV Colóquio do Comitê Brasileiro de História da Arte. Belo Horizonte : CBHA, 2004. v. 1.
_______. Marques Rebelo, Emilio Pettorutti e a exposição de artistas brasileiros em La Plata 1945 (tradução e texto introdutório). Rotunda (UNICAMP), v. 3, p. 13-21, 2004.
_______. El programa iconográfico de las hermandades de clérigos seculares em Portugal y em la América Portuguesa em el siglo XVIII: presentación de uma investigación.. In: Terceiras Jornadas de História da Arte, 2006, Valparaíso. Terceiras Jornadas de História da Arte. Santiago : RIL Editora, 2006. v. 1. p. 125-132.
_______. Artes visuais e literatura: uma introdução à obra artística de Cornélio Penna.. Rotunda (UNICAMP), v. 4, p. 15-42, 2006.
_______. Fronteira: os limites entre imagem e literatura na obra artística de Cornélio Penna In Imágines Perdidas: censura, olvido, descuido. IV Congreso Internacional de Teoría e História de las Artes XII Jornadas CAIA. Buenos Aires, 25 a 29 set. 2007. pp.193-209.
_______. La utilización política de La iconografia petrina por lãs hermandades de clérigos seculares: la gestación de um modelo iconográfico entre Rom, Portugal y América portuguesa In DRIEN, M., GUZMÁN, F., MARTÍNEZ, J. M., América, território de tranferencias. Cuartas jornadas de Historia del Arte. Santiago, Chile, 2008, pp.185-193.

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