Lusotropicalismo e Hispanidade no Mundo Ibérico

LUSOTROPICALISMO E HISPANIDADE NO MUNDO IBÉRICO

Ana Lúcia Lana Nemi
Professora História Contemporânea/UNIFESP

Solicita-se, por favor, citar a fonte

“Talvez se riam. Mas eu sustento a semelhança. Aquele todo de Gonçalo, a franqueza, a doçura, a bondade, a imensa bondade, que notou o Sr. Padre Soeiro … Os fogachos e entusiasmos que acabam logo em fumo, e juntamente muita persistência, muito aferro quando se fila à sua idéia … A generosidade, o desleixo, a constante trapalhada nos negócios, e sentimentos de muita honra, uns escrúpulos, quase pueris, não é verdade? … a imaginação que o leva sempre a enxergar até à mentira, e ao mesmo tempo um espírito prático, sempre atento à realidade útil. (…) A esperança constante nalgum milagre, no velho milagre de Ourique, que sanará todas as dificuldades … A vaidade, o gosto de se arrebicar, de luzir, e uma simplicidade tão grande, que dá na rua o braço a um mendigo … Um fundo de melancolia, apesar de tão paltrador, tão sociável. A desconfiança terrível de si mesmo, que o acobarda, o encolhe, até que um dia se decide, e aparece um herói, que tudo arrasa … Até aquela antiguidade de raça, aqui pegada à sua velha Torre, há mil anos … Até agora aquele arranque para a África … Assim todo completo, com o bem, com o mal, sabem vocês quem ele me lembra? – Quem? – Portugal.”
Eça de Queiroz(1)

“– !Escandaloso! !Seis horas de retraso! !Nuestro mal endêmico! !Lo he dicho siempre! !Nuestro mal endêmico! !En este país nadie tiene prisa, y el tiempo es oro, como canta el inglês de la zarzuela! !Ahí debíamos tomar ejemplo! !Pero somos incorregibles! !Sólo servimos para las acciones heróicas! !Lo he dicho siempre! !Nos sobra heroísmo y nos falta maquinismo!”
Ramón Del Valle-inclán(2)

Eça de Queiroz (1845-1900), homem de cultura da geração de portuguesa de 70 cuja influência nos debates públicos invadiu o século XX, e Valle-Inclán (1866-1936), homem de cultura da geração espanhola de 98 cuja influência avançou até os debates que antecederam a Guerra Civil espanhola de 1936-1939, manifestam, nos excertos de romances transcritos acima, uma mesma preocupação: a presença de um certo heroísmo, conteúdo dos séculos de conquista e colonização, avesso às atividades mais científicas e laboriosas, que parece caracterizar o comportamento dos homens da Península Ibérica. Havia uma unanimidade nos textos e nas intervenções públicas dessas gerações do final do oitocentos no que diz respeito às possibilidades de modernização da Península: era preciso, em primeiro lugar, educar as camadas populares, formar uma opinião pública capaz de fortalecer a sociedade dos cidadãos e organizar a regeneração nacional. Daqui a importância do intelectual demiurgo: o leitor do mundo, aquele que inventaria e explica a História nacional, aquele que, localizando-se acima das paixões políticas, pode indicar o caminho da modernização e da superação da defasagem temporal em relação às nações adiantadas da Europa(3). Esse posicionamento frente às urgências dos problemas públicos peninsulares, marcado por um certo pessimismo cuja origem encontra-se nos diagnósticos da “decadência”, ganhou tintas mais graves e fortes no início do século XX com as gerações de 1910 em Portugal e de 1914 na Espanha.
Claro está que os caminhos e os posicionamentos políticos não seriam os mesmos: o republicanismo federalista e socialista de Antero de Quental (1842-1891) diferenciava-se do republicanismo positivista de Teófilo Braga (1843-1924), ambos intelectuais ligados aos debates do setenta português. No mesmo sentido, as noções de democracia defendidas por Jaime Cortesão (1884-1906), este último já representante da geração portuguesa de 1910, embora dialogassem com os pensadores citados, distanciava-se deles no que diz respeito aos conteúdos da expansão portuguesa e às possibilidades de inserção da nação no concerto político e econômico europeu. Da mesma forma, Valle-Inclán posiciona-se em seus textos como um anarquista e, ao mesmo tempo, carlista, já Ortega y Gasset (1883-1955), posiciona-se pelo Liberalismo aristocrático e contra a democracia de massas, e esses dois autores participaram dos debates das gerações espanholas de 1898 e de 1914. A investigação sobre os motivos e a datação da dita “decadência”, a busca dos significados dos mitos que envolviam os processos de conquista e colonização, o estudo sobre o que seria o “caráter nacional”, tarefas que essas gerações de intelectuais ibéricas da virada do século XIX para o XX se impuseram, no entanto, trouxeram para o seio dos debates sobre a regeneração nacional o tema da “tradição”: como alocar a tradição nos parâmetros do inteiramente novo? Seria tal operação possível? Mais ainda, seriam os pressupostos do liberalismo democrático compatíveis com a Ibéria? A crise dos intelectuais ibéricos, sempre em busca de saídas para o atraso e em meio a pressupostos da tradição e elementos da modernidade, seria um indicativo de que o mundo ocidental dos cidadãos, ancorado nos princípios divulgados pela Revolução Francesa, havia mostrado os seus limites? Estaria o mundo ibérico em crise e a pedir novos fundamentos e caminhos? Esse o caldo cultural do debate que, acreditamos, encontra-se na origem das reflexões de Gilberto Freyre (1900-1987), que o levaram à formulação do Lusotropicalismo, e, também, à retomada do debate sobre os conteúdos da Hispanidade pelos intelectuais que, tributários dos debates das gerações citadas acima, pretenderam erguer um novo Portugal, com a fundação da República em 1910, e uma nova Espanha, com a proclamação da República em 1931. Nos dois casos a experiência republicana pluripartidária de formação de governos eleitos e extensão da cidadania real a todos os nacionais foi derrotada, e as referências culturais acima citadas, que naquelas graves e convulsas décadas do início do século XX pretendiam re-conhecer o mundo ibérico e sugerir sua reorganização, fundamentaram boa parte da ação dos grupos conservadores. No limite, elas apontam para uma nação marcada pela especificidade frente ao mundo ocidental com base em diagnósticos sobre a sua construção e a sua História. Senão vejamos.
Em primeiro lugar, cabe caracterizar essas duas referências em separado para, depois, sugerir uma possível análise do significado político dessas duas referências culturais ibéricas.
O que parece pressupor o texto de Gilberto Freyre(4) é a impossibilidade de universalizar as experiências culturais de povos e nações diferentes. Negando a validade universal de algumas das exigências da sociedade burguesa, o autor procura inventariar os modos de viver e sobreviver do Brasil desde o período colonial para, exatamente, caracterizar o que seria a singularidade da experiência brasileira sob traço português. Tal singularidade teria como fundamento a acomodação de contrários: entre a ordem e o progresso, a casa grande e a senzala, o público e o privado, a casa e a rua, haveria complementaridade que apontaria para uma democracia social marcada pelo encontro entre grupos sociais original e culturalmente diversos. O encontro entre portugueses, negros e índios teria permitido a acomodação em meio aos conflitos, impedido a ruptura e levado à conciliação. Nessa lógica culturalista, os conflitos são dirimidos e a idéia liberal-democrática de um contrato político que fundasse as bases de representação e participação política torna-se secundária e, por conseqüência, descartável. A solução conservadora para os graves problemas do Brasil dos anos 30 está, assim, mais do que justificada: as propostas socialistas e anarquistas, assim como as soluções democráticas de ampliação da participação popular nas decisões políticas, em âmbito eleitoral-partidário ou em âmbito sindical, são descartadas porque configuram interpretações do Brasil que advogam conflitos inexistentes nas origens da nossa sociedade. Numa palavra, o que Gilberto Freyre nega é a possibilidade de interpretação racional das configurações sociais, na sua particular interpretação a racionalidade tipicamente burguesa não se aplicaria aos processos civilizatórios construídos pelos portugueses na sua expansão.
Mas há que lembrar o hispanismo das formulações freyrianas: sua concepção de civilização coloca o Brasil, do mesmo modo que Portugal, no conjunto das nações hispânicas e não européias. O mundo ibérico teria se constituído na confluência e na fusão de experiências culturais amalgamadas na Península, notadamente os traços ibéricos, romanos, germânicos, árabes e judeus. O autor cria, nas palavras de Valentim Alexandre(5) , uma tipologia de natureza tropical para a ação dos portugueses no Ultramar que será muito útil, não apenas à ideologia varguista no Brasil, mas à ideologia salazarista em Portugal. O discurso lusotropicalista, oficializado pelo Estado Novo português, procurava demonstrar, nas palavras de Antonio da Costa Pinto, que Portugal “era uma nação compósita euro-africana e euro-asiática que, estendendo-se por espaços livres e desaproveitados, pretendeu imprimir aos povos conceitos muito diversos dos que caracterizavam outros tipos de colonização”.(6)
Acredito que as teses de Gilberto Freyre compõem um caldo cultural que pretende demonstrar as vantagens do atraso das nações ibéricas, e que se filiam a uma certa tradição de pensamento conservador que, ao estudar a decadência das nações ibéricas, perceptível já nos séculos XVI e XVII, procura encontrar remédios para os problemas nacionais apontando o que seria o humanismo da ação ibérica no Ultramar. Richard Morse(7) chega a afirmar a existência de um ideal rousseauniano de justiça que seria instrumento de construção da identidade e da emancipação diante da dominação modernizante que as potências estrangeiras exerceriam sobre as nações construídas pelo mundo ibérico.
A tentativa de definir um humanismo que seria característico do mundo ibérico é, também, um importante conteúdo dos debates sobre a Hispanidade como referência cultural. O influxo maior do debate deu-se, sem dúvida, em função de certa percepção da crise dos regimes liberal-democráticos nos anos 20 e 30(8) , mas ele se reporta ao final do século XIX, mais especificamente à perda das últimas colônias pela Espanha em 1898. A derrota trazia para o seio do discurso das elites intelectuais do país a comparação entre o mundo ibérico e o mundo que, na interpretação de José Ortega y Gasset(9) , principal pensador das gerações que atuam na passagem do século XIX para o XX, fora construído na lógica da razão e do progresso material. A crítica implícita à grande nação de origem anglo-saxã que invadira o mundo ibérico do Ultramar era evidente e tinha tintas européias: a Europa passava por uma crise de valores porque afastara-se do humanismo e rendera-se ao fausto da técnica. Recuperar a tradição humanista que marcara a presença ibérica no Ultramar era o melhor caminho para enfrentar os avanços da doutrina Monroe. Assim, a Hispanidade seria uma importante referência cultural não apenas para o mundo ibérico, aparentemente decadente e sujeito aos influxos materiais do mundo anglo-saxão, mas para a Europa, onde a crise de valores detectada pelos intelectuais tributários das teses de Splenger e Simmel, também estaria a manifestar-se com a ascensão dos movimentos sociais de massa que propunham a ruptura.
Mas se o discurso Lusotropicalista apontava para uma solução, de certa forma unívoca, de caráter conservador que minimizava a ação político-institucional dos grupos sociais organizados, os debates sobre os conteúdos da Hispanidade, embora fundamentados na recuperação do humanismo ibérico que teria estado presente nos processos de expansão dos séculos XV e XVI, sugeriram caminhos distintos. Recuperar o humanismo ibérico na interpretação de Menéndez Pelayo (1856-1912) e Ramiro de Maeztú (1875-1936), por exemplo, significava reafirmar o passado imperial e inquisitorial que teria tornado a experiência expansionista espanhola única e insubstituível. Para autores como Valle-Inclán, Ortega y Gasset e José Gaos (1900-1969), de outro lado, recuperar o humanismo ibérico significava exatamente libertá-lo dos seus conteúdos imperiais e contra-reformistas e demonstrar a viabilidade do estabelecimento de pactos e contratos de convivência pública. Poderíamos resumir as duas proposições da seguinte maneira: enquanto a primeira sugestão, de caráter mais culturalista, nega qualquer possibilidade de modernização em sentido ocidental do mundo ibérico, a segunda sugestão, de caráter mais ocidentalizante, aponta a possibilidade de reorganização dos pressupostos liberais pensados, nessa lógica, com base no humanismo ibérico e não no progresso material. A ambigüidade desta última formulação que se pretende modernizadora sem os seus fundamentos capitalistas de base material é evidente. Trata-se aqui de encontrar na dita tradição humanista ibérica fundamentos para a construção da modernidade sonhada numa lógica singular.
Essas duas interpretações terão importante significado após a instauração da República espanhola de 1931: os intelectuais liberais procurarão os termos da modernização política e social na Espanha e os tradicionalistas lutarão pela manutenção da sociedade hierárquica tributária do Antigo Regime. Aliando-se aos primeiros nas eleições de 1931 e 1936, ou abstendo-se dos pleitos liberal-democráticos em 1934, socialistas e anarquistas jogaram importante papel nesse cenário porque pretendiam romper com as duas proposições e construir o inteiramente novo. A Guerra Civil espanhola opôs a Espanha republicana, defendida pelos liberais, socialistas e anarquistas, e a Espanha tradicionalista. A vitória desta última acabou criando duas circunstâncias de elaboração e expansão do tema da Hispanidade como referência cultural: dentro da Espanha tradicionalista, vencedora da Guerra, a reafirmação dos conteúdos mais conservadores e o impedimento dos movimentos populares de livre manifestação. No exílio, afirmando que a Espanha encontrava-se colônia de si mesma, os defensores da modernização, da possibilidade do pacto e da representação popular, do humanismo livre dos tradicionalismos inquisitoriais. Valle-Inclán, que esteve entre os EUA e Porto Rico, afirmava que nos EUA sentia-se efetivamente exilado, mas quando se encontrava em Porto Rico, sentia-se como que em continuidade com Espanha.
Entre os intelectuais do exílio que discutiram o tema da Hispanidade, cabe destacar José Gaos que propunha o olhar crítico sobre o passado e a reelaboração do “sentido de España y del pensamiento español en una trama que haría” do país um “nervio de comunicaciones com América”.(10) É essa circunstância de exílio que constituiu, de um lado um dos fundamentos da aproximação da Espanha com a América Latina após o processo de redemocratização nos anos 70 do século XX, de outro, a solução política que alijou as camadas populares desse mesmo processo. José Luís Abellán, estudioso de vidas espanholas no exílio e ele mesmo exilado, afirma textualmente: “España y el pensamiento español se hallan así embarcados en un proceso de liberalización, suscetible de unirse al proceso de liberación que impulsa la dinâmica de los pueblos americanos.”(11) Observe-se que, nessa lógica, a Espanha que, junto com a América, estaria seguindo os ventos liberalizantes é também aquela que se caracteriza pela integração, pela síntese e pela mestiçagem, aquela que plantou na América as bases do sincretismo cultural que configura sua estrutura social. Embora em versão liberal-democrática, a mesma visão lusotropical da composição e da eliminação dos conflitos no lugar da negação e da ruptura.
Mas o Lusotropicalismo cabe reafirmar, não permite encontrar soluções no plano da representação política. A sociedade tropical que aqui teria se formado seria tributária de um conceito de civilização que pressupõe o amalgamento dos conflitos em soluções pactuadas em âmbito privado e que, em círculos concêntricos, segundo a interpretação da professora Élide Rugai Bastos(12) , transborda para o espaço público. A diluição dos espaços privado e público aponta para um desnecessário aparato político de participação e representação popular: bastaria aos povos ibéricos, saberem-se amalgamados para viverem felizes e em paz. Nesse sentido, talvez o professor Antonio Candido possa indicar um caminho para finalizar essa pequena análise. Em 1943, respondendo a algumas indagações de Mário Neme sobre a plataforma da nova geração de intelectuais que se estaria formando naqueles anos 40, Antonio Candido preocupou-se em discutir o então oficial Lusotropicalismo sugerido por Gilberto Freyre. Nas suas conclusões:

“Veja você o nosso mestre Gilberto Freyre – a que ponto está levando o seu culturalismo. Suas últimas obras descambam para o mais lamentável sentimentalismo social e histórico; para o conservadorismo e o tradicionalismo. Enamorado do seu ciclo cultural luso-brasileiro, é levado a arquitetar um mundo próprio, em que se combine o progresso com a conservação dos traços anteriores característicos. Tudo estará justificado se trouxer a marca do mundo que o português criou e que nós vamos desenvolvendo e preservando, sim senhor, com a ajuda de Deus e de Todos os Santos Unidos. O mesmo movimento que o leva a gostar das goiabadas das tias e dos babados de prima Fulana o leva gostosamente a uma democracia patriarcal, em que, etc., etc. Como se vê, Mário Neme, aí está um caso em que o método cultural carrega água para o monjolo da Reação”.(13)

Quanto à visão de mundo manifestada pelos intelectuais aqui sumariados, cabe lembrar o tão esquecido quanto importante Georg Lukács: pensando em solo “ambíguo”, no qual a modernidade compõe-se de elementos do atraso que sempre cobram o seu lugar nas novas configurações sociais e políticas que se organizaram e propuseram ao longo dos séculos XIX e XX, são todos, assim como nós também, narradores sob suspeita. Gilberto Freyre, Ortega y Gasset, Miguel de Unamuno (1864-1936), Antero de Quental, e mesmo Eça de Queiroz com a sua aguda crítica à Regeneração e ao Terceiro Império português, refletiram sobre e problematizaram dimensões aparentemente ambíguas que invadem o pensamento social no mundo ibérico: há realidades e níveis de cultura imbricados. Entre o nacional e o estrangeiro, o popular e o erudito, a razão e o sonho, há sempre uma nação que busca a modernidade inconclusa e que, ao mesmo tempo, mantém níveis de alfabetização e pobreza que denunciam que, se de um lado fomos constituídos na lógica da modernidade que se construiu e expandiu a partir do século XV, de outro, não alcançamos os níveis de modernidade econômica, social e política prometidos pelas utopias modernas. Nesse grande sistema mundo construído a partir da expansão marítima a nós cabe o lugar de centro e periferia ao mesmo tempo e esses intelectuais manifestaram esse “sentimento de mundo” revelado em dimensões que dialeticamente se sobrepõem enganando o leitor com suas aparentes ambigüidades entre o que seria arcaico e o que seria moderno.
Cabe relevar o quanto tal debate toca aos historiadores. Escrever a História em narrativas que diluem os espaços públicos e privados e esquecem de indagar o lugar da política na vida dos grupos sociais envolvidos tem implicações que não podemos esquecer e nos reportam aos temas do iberismo, aqui debatidos em torno das teses do Lusotropicalismo e da Hispanidade como referências culturais. No mesmo sentido, retomar as teses iberistas para advogar certa excepcionalidade das nações ibéricas apontando-as como variantes do mundo ocidental também minimiza os conflitos sociais e classistas de correntes do processo de modernização conservadora pelo qual o mundo ibérico seguramente passou e contínua a passar.
Talvez valha finalizar esse pequeno texto com uma indagação recolhida das reflexões do professor Luis Felipe Alencastro(14) e das leituras de Ítalo Calvino(15) : sofremos do gigantismo dos seres inviáveis diante da modernidade prometida e inconclusa ou o nosso enigma e segredo seria a incompletude manifesta cuja única solução seria a ruptura total?

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1. Eça de QUEIROZ, A ilustre casa de Ramires, S.P.: Martin Claret, 2002, p. 284-285.
2. Ramón Del VALLE-INCLÁN, El ruedo ibérico – I. La corte de los milagros, Madri: Espasa-Calpe, 1996, p. 276.
3. Elide Rugai BASTOS e Walquíria L. REGO, Intelectuais e política – A moralidade do compromisso, S.P.: Olho d’ água, 1999; Norberto BOBBIO, Os intelectuais e o poder – Dúvidas e opções dos homens de cultura na sociedade contemporânea, S.P: Unesp, 1999; Antonio Pedro PITA, “Os intelectuais e a democracia ou a democracia dos intelectuais”, In: Maria Emília PRADO (org.), Tradição e Modernidade no Mundo Ibero-Americano, R.J.: CNPQ, 2004, pp. 11-22.
4. Destaco três obras de Gilberto FREYRE:Casa-grande & Senzala, S.P.: Global, 2004 e Sobrados & Mucambos, R.J.: Record, 1996, por constituírem os dois primeiros volumes da Introdução à história da sociedade patriarcal no Brasil e terem sido publicados nos anos 30, quando o debate sobre as possibilidades da Revolução de 30 realmente modernizar o Brasil, e qual seriam os conteúdos dessa modernização, estava bastante acirrado; e Interpretação do Brasil, S.P.: Cia das Letras, 2001, porque, tendo sido publicado pela primeira vez no Brasil em 1947 (tratam-se de conferências pronunciadas nos Estados Unidos), pretendia ser uma síntese da sua concepção acerca das singularidades ibéricas: “(…) as concepções e condições antagônicas de vida dos espanhóis e portugueses não chegam nunca a um ponto de equilíbrio sem enorme conflito. Mas sempre o processo de fusão, de acomodação, de assimilação, mostrando-se com poder maior.” (p. 600
5. Valentim ALEXANDRE, Velho Brasil Novas Áfricas, Porto: Afrontamento, 2000, p. 226-229.Ver também: Cláudia CASTELO, “O modo português de estar no mundo” – O luso-tropicalismo e a ideologia colonial portuguesa (1933-1961), Porto: Afrontamento, 1999.

6. Antonio da Costa PINTO, O fim do Imério Português, Lisboa: Horizonte, 2001, p. 45. Vale ressaltar que o Luso tropicalismo tornou-se oficial em Portugal apenas após a Segunda Guerra.
7. Richard M MORSE, O espelho de Próspero – Cultura e idéias nas Américas, S.P.: Cia das Letras, 1988.
8. Arthur HERMAN, A idéia de decadência na História ocidental, R.J.: Record, 1999. Cf. também, acerca do debate sobre o papel dos intelectuais como guardiões da cultura e da razão, Michel WINOCK, O século dos intelectuais, R.J.: Bertrand Brasil, 2000.
9. José ORTEGA y GASSET, A rebelião das massas, S.P.: Martins Fontes, 1987; e España invertebrada, Madri: Revista de Occidente en Alianza Editorial, 2001.
10. José Luis ABELLÁN & Antonio MONCLÚS, el pensamiento español contemporâneo y la Idea de América –II El pensamiento em el exílio, Barcelona: Anthropos, 1989, p. 20-21.
11. IDEM, p. 26.
12. Elide Rugai BASTOS, Gilberto Freyre e o pensamento hispânico– Entre Dom Quixote e Alonso El Bueno. Bauru, S. P.: EDUSC, 2003.
13. A. DANTAS, Antonio Candido – Textos de intervenção, S.P.: Duas Cidades, 2002.
14. Em artigo para a revista Veja de 20/01/1999, à página 15, Luis Felipe de ALENCASTRO indagava: “Engendramos a diferença própria que caracteriza as grandes nações ou sofremos do excepcionalismo dos seres inviáveis? O gigantismo da metrópole paulista, o enigma do destino brasileiro, o que será de nós no próximo milênio?”
15. Ítalo CALVINO, O Visconde partido ao meio, S.P.: Cia das Letras, 2000.

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