Memória e escrita dos Cronistas e Viajantes do Novo Mundo

MEMÓRIA E ESCRITA DOS CRONISTAS E VIAJANTES DO NOVO MUNDO

Bianca Carolina Pereira da Silva
Aluna do curso de História da UNIFESP, bolsista PIBIC
Solicita-se, por favor, citar a fonte

I Justificativa da Solicitação

O objetivo desta pesquisa é construir um acervo de dados sobre as principais obras dos cronistas e viajantes que, entre os séculos XVI e XIX, percorreram a América e registraram por escrito, em forma de crônicas e narrativas, as suas impressões e memórias.
Esse acervo de dados estaria dentro da linha de pesquisa desenvolvida pelo professor Rafael Ruiz com o seu projeto, aprovado com o auxílio de “jovem pesquisador” pela Fapesp, intitulado “ Direitos e Justiça nas Américas” e ficaria integrado no Núcleo de Estudos Ibéricos do curso de História do campus Guarulhos da Unifesp.
O acervo, na medida em que for sendo construído, serviria de consulta e de análise para todos aqueles que se interessassem em elaborar projetos e pesquisas em temas relativos à história da América e, especificamente, no vasto tema dos cronistas e viajantes do Novo Mundo.
A premissa que sustenta este projeto é a de analisar o modo como a memória individual é articulada e expressa nos relatos produzidos entre os séculos XVI e XIX acerca do Novo Mundo. Esse longo tempo de duração permitirá perceber as semelhanças e diferenças dos relatos a partir das diferentes perspectivas e estruturas narrativas ao longo do tempo. Dessa forma pretende-se não apenas entender aquilo que sobre a América foi escrito e relatado, mas também captar o próprio olhar do narrador, nas suas peculiaridades e circunstâncias históricas.
Partindo da advertência do crítico literário Stephen Owen de que “Quando lemos a escrita da memória, é fácil esquecer que não lemos a própria memória, mas sim a sua transformação através da escrita” – lembrada por Peter Burke em seu artigo A História como Memória Social – penso no fato do quão necessário se faz o olhar crítico em relação a todo e qualquer tipo de fonte e, de forma mais especifica, das fontes produzidas em decorrência de uma experiência vivida, como é o caso destas produzidas pelas diversas categorias de cronistas e viajantes. Tal necessidade se faz presente, sobretudo, à luz dos preceitos da chamada “Nova História” proposta pela escola francesa dos Analles, que atualmente é referência para os profissionais desta área.
Este projeto de iniciação científica pretende ser o primeiro de uma série de projetos que, se aprovado, poderão seguir-se, inclusive com outros alunos e outros pedidos de IC, formando um grupo de estudos, dentro do Núcleo de Estudos Ibéricos, sobre a memória e a escrita.
Em principio me ocuparei, neste ano, das descrições de Gonzalo Fernández de Oviedo contidas na obra Sumário de la Natural Historia de Las Índias , escrito em 1526, sobre o aspecto físico de parte do território sob domínio da Coroa espanhola e dos relatos de Ulrich Schmidel, em Relatos de La Conquista Del Rio de La Plata y Paraguay 1534-1554 , publicado pela primeira vez em 1567, acerca de sua participação em expedições de conquista destas regiões. A escolha desses textos justifica-se pelo fato de serem uns dos primeiros relatos sobre as terras americanas, poucos anos após a descoberta da América.

II Caracterização do Problema
Existe um aspecto bastante recorrente em relação a este tipo de registro de crônicas e narrativas: o “status de verdade”, atribuído não só pelos próprios viajantes, como também pelo seu público e / ou editores. É bastante claro que esta legitimação imediata é fruto do reconhecimento da experiência vivida, como prova de verdade dos fatos relatados.
Tratando-se ainda especificamente de documentos desta natureza que tiveram por objeto o cotidiano e lugares do “Novo Mundo” no século XVI, nota-se que são dotados de grande importância, visto que por se referir ao período próximo do descobrimento destas terras, constituíam um dos principais meios de informação às nações colonizadoras acerca de suas posses; motivo pelo qual tinham ampla aceitação nestas sociedades.
Desta forma, pensando em estudos que apontam para o processo de produção social da memória, tanto no plano individual, quanto no coletivo – visto que existe uma relação de complementaridade entre estes planos – pretendo analisar esses documentos cujo perfil está inserido nos moldes traçados anteriormente, no esforço de perceber o modo de estruturação do discurso neles contidos e colocando-me em acordo com Peter Burke, quando este afirma que “lembrar o passado e escrever sobre ele já não podem ser consideradas atividades inocentes”, ou seja, não são atividades objetivas.
São referências para este projeto o estudo do sociólogo Maurice Halbwachs da obra A Memória Coletiva , no qual o autor desenvolve conceitos que explicam o processo de rememoração dos fatos – a partir de uma relação intrínseca entre a memória individual e memória coletiva – como também o artigo de Jacques Le Goff, de título “Memória” , sobre a relação entre a memória e história e o desenvolvimento das técnicas mnemônicas em decorrência da inserção da escrita nos meios sociais.
Esta abordagem visa por um lado contribuir com os estudos publicados por historiadores que apontam a importância de tal categoria de documentos para a compreensão de aspectos das sociedades humanas ao longo do tempo, destacando os mais diversos métodos de análise, aos quais estas fontes devem ser submetidas. Por outro, procurará incentivar os estudos e pesquisas dos cronistas da América, por meio da elaboração do acervo de dados a ser constituído, disponibilizando-o para todos aqueles que se interessarem por esses estudos.
A obra de Oviedo foi escrita no ano de 1526 em decorrência de uma viagem à Espanha, na qual o monarca Carlos V expressou ao autor seu interesse imediato em informar-se sobre o mundo natural do “novo continente” e, nesta ocasião, Oviedo compôs o referido texto sem usar “não mais que sua feliz memória, pois se encontravam fora de seu alcance, na remota ilha de São Domingo, as notas que tinha preparado para a redação de sua História Geral” – segundo afirma o historiador José Miranda, supervisor e autor das notas e introdução da edição que abordei.
Os relatos de Schmidel, como o anterior, têm também a característica de ser composto em um período posterior ao da experiência vivida, visto que seu autor teve oportunidade de rememorar e transcrever os fatos somente após um período de vinte anos, nos quais participou de uma expedição espanhola colonizadora de áreas do território americano, em que sofreu os mais diversos tipos de infortúnios. Seus relatos vieram a público somente em 1527, ou seja, treze anos após a viagem empreendida à América do Sul.
Trata-se, portanto, de analisar o papel da memória, como instrumento para a escrita da experiência histórica, visto que existe uma diferença de perspectivas que devem ser consideradas entre o momento em que as coisas foram vistas e vividas, e o momento no qual foram transpostas em forma de narrativa escrita.

Objetivos e Metas

O objetivo a ser alcançado é a constituição de um acervo de dados para ser disponibilizado a partir do Núcleo de Estudos Ibéricos do Curso de História da Unifesp visando o fichamento e a análise das obras dos cronistas e viajantes da América, formando um grupo de estudos e pesquisa intitulado “Memória e Escrita sobre a América”.
No caso deste projeto em particular, o objetivo consiste em entender, com o auxílio de estudos específicos, o funcionamento da memória no plano individual, bem como suas relações com a memória coletiva, a fim de estabelecer o processo de representação do passado e da verdade histórica na construção dos relatos oriundos de experiência vivida, a partir das obras de Gonzalo Fernandez de Oviedo e de Ulrich Schmidel.
Metodologia e Estratégia de ação
Primeiramente pretende-se fazer um levantamento de estudos que tenham como objeto a memória e produzir fichamentos que distingam os conceitos específicos de cada autor. Em seguida, tendo em mãos um quadro geral dos meios de funcionamento da memória recolhidos desta literatura, pretende-se realizar uma leitura dos relatos escolhidos, sob a égide dos aspectos destacados na pesquisa anterior.
Nesta segunda etapa, serão produzidos fichamentos individuais para cada relato analisado, contendo: dados do autor, o estilo de viagem empreendida, a circunstância em que tais relatos foram produzidos e sua repercussão dentre o público alvo, bem como os aspectos característicos encontrados que identifiquem o modo de estruturação dos relatos a partir da lógica de memória indicada anteriormente.

Resultados e Impactos esperados

O resultado esperado com a solução do problema proposto é contribuir com pesquisas que poderão ser feitas futuramente, visto que além de visar a criação do acervo com dados gerais dos cronistas, pretendo também indicar o complexo processo de representação da verdade histórica pelo qual eles passaram.

Sumário das Atividades a serem Desenvolvidas

Agosto 2008/ Janeiro 2009
Análise e fichamento da bibliografia especifica acerca da memória
Elaboração de um quadro geral, á partir dos fichamentos produzidos, contendo os aspectos mais recorrentes acerca da estrutura lógica da memória
Análise dos relatos de Oviedo e Schmidel
Análise e fichamento da bibliografia complementar acerca dos cronistas e viajantes
Fevereiro: Elaboração relatório parcial a ser entregue na data limite de 27/02/09
Março / Abril:
Organização dos fichamentos em formato ideal para constituir o inicio do acervo (mídia, impresso)
Elaboração do resumo da pesquisa
Elaboração relatório final
Maio / Junho: Preparação do texto da pesquisa a ser apresentado no congresso

Referências Bibliográficas
BLOCH, Marc Léopold Benjamin. Apologia da história: ou o ofício de historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.
BURKE, Peter (org.). A Escrita da História. São Paulo: Editora UNESP, 1992.
KARNAL, Leandro [org.]. A escrita da memória : interpretações e análises documentais. São Paulo : Instituto Cultural Banco Santos, 2004
PEDROSA, Maria Isabel Patricio de Carvalho. Compreensão da escrita : um progresso da memoria ou uma construcao simbolica? / [Orientador] David William Carraher. Recife : S.N., 1981
CAPELATO, Maria Helena. O Homem e o método: resenha da obra de Jacques Le Goff, Historia e Memória. Campinas: Editora da Unicamp, 1990.
SANTOS, Myrian Sepúlveda dos. Memória coletiva e teoria social. São Paulo: Annablume, 2003.
GINZBURG, Carlo. Exphrasis e citação In: A Micro-historia e outros ensaios. Lisboa : Difel, 1989
SALAS, Alberto Mario. Tres cronistas de Indias: Pedro Mártir de Anglería, Gonzalo Fernández de Oviedo, fray Bartolomé de las Casas. Mexico: Fondo de Cultura Económica, 1959.

GERBI, Antonello. La Naturaleza de las Indias Nuevas: de Cristobal Colon a Gonzalo Fernandez de Oviedo. Mexico: Fondo de Cultura Económica, 1978.
KLOSTER, Walter. Ulrico Schmidel no Brasil quinhentista. Tradução do alemão – G. A. Buechler. São Paulo : Tip. Gutenberg, 1942.

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