Utopias e ilusões da Modernidade

UTOPIAS E ILUSÕES DA MODERNIDADE
Solicita-se, por favor, citar a fonte: III CONGRESSO FILOLOGIA – USP

Rafael Ruiz(*)
Professor de História da América da UNIFESP

Introdução
O objetivo deste trabalho é propor uma interpretação para entender melhor a Modernidade a partir de duas obras culminantes, o Quixote de Cervantes, escrita no começo do século XVII, e As Viagens de Gulliver(1) , escrita um século depois.
A primeira apresenta-se como um sinal de alerta com relação à Modernidade e às suas premissas, enquanto que a segunda consagra o triunfo definitivo da mesma.
O ponto de partida da minha análise encontra-se na premissa de que a obra imortal de Cervantes é uma crítica ao próprio projeto da Modernidade, que na sua defesa e afã de racionalidade, acabaria por defender a construção de uma sociedade futura e perfeita que, partindo dos postulados e princípios racionais, garantiria um estado de bem-estar e de felicidade compartilhado por todos os seus membros. Por outro lado, a obra de Swift defende precisamente que a sociedade só poderá chegar a ser perfeita e justa na medida que adotar os princípios racionalistas do Iluminismo.
As coisas não poderiam continuar do jeito que estavam, pensava Dom Quixote. E o mesmo pensaria Gulliver no país do Houyhnhnhns. A injustiça, a ociosidade, a corrupção, a mentira e a maldade não deveriam continuar prevalecendo nas relações sociais. Era necessário mudar tudo isso, a partir de um modelo que resolvesse definitivamente as injustiças do mundo. Era preciso que um Quixote alterasse as estruturas e as condições injustas da sociedade ou que um Gulliver contasse à Europa como as coisas se passavam de forma diferente noutros lugares.

O Quixote, profeta de um novo tempo
Tende-se a olhar para a obra de Cervantes como uma tentativa ou forma de encerrar definitivamente o tempo passado, aquele dos “cavaleiros andantes”, ou, então, como uma crítica ou sátira contra todos aqueles que, no tempo presente, petendessem reviver um passado que nem sequer existiu(2) ou, ainda, como uma análise sobre o eterno enfrentamento nas sociedades humanas entre sonho e realidade.
Contudo, parece-me que o Quixote de Cervantes é uma forma profética de anunciar os novos tempos que se aproximam. Novos tempos marcados pela pretensão racionalista de poder construir uma sociedade perfeita e justa a partir de certos princípios racionais, verdadeiros e universais. O Quixote não é louco porque quer reviver um passado glorioso; é louco porque quer construir um futuro perfeito(3) . Louco, porque como diria Chesterton, na sua obra “Ortodoxia”, perdeu tudo menos a razão.
Logo no primeiro capítulo, Cervantes avisa ao leitor que vai falar de alguém que se enfrascou tanto nas leituras “que passava as noites de claro em claro e os dias de escuro em escuro, e assim, do pouco dormir e do muito ler, se lhe secou o cérebro, de maneira que chegou a perder o juízo”(4) . E a sua loucura consistiu em “fazer-se cavaleiro andante, e ir-se por todo o mundo, com as suas armas e cavalo, à cata de aventuras, e exercitar-se em tudo em que tinha lido se exercitavam os da andante cavalaria, desfazendo todo gênero de agravos, e pondo-se em ocasiões e perigos, donde, levando-ao a cabo, cobrasse perpétuo nome e fama”(5) .
Na minha opinião, o que Cervantes está querendo-nos dizer é para tomar cuidado com esses reformadores modernos, construtores de uma “utopia social”, onde a virtude, a justiça, a igualdade e todos os outros valores –afinal, valores de cavaleiros andantes- se imponham a partir de uma definição prévia, categórica e conceitual, tal como fazia o Quixote, a partir do seu modelo cavaleiresco, para quem, como ele próprio dizia, existiam vários caminhos e formas de viver na sociedade (o da ambição, o da adulação, o da hipocrisia, até o da verdadeira religião…) mas ele escolhera “o estreito caminho da cavalaria andante, por cujo exercício desprezo a fazenda, mas não a honra. Tenho satisfeito agravos, castigado insolências, vencido gigantes e atropelado vampiros: sou enamorado, só porque é forçoso que o sejam os cavaleiros andantes e, sendo-o, não pertenço ao número dos viciosos, mas sim ao dos platônicos e continentes. As minhas intenções sempre as dirijo para bons fins, que são fazer bem a todos e mal a ninguém”(6) .
De acordo com Oakeshott(7) , a desgraça atual, que percebemos existencialmente na nossa sociedade, baseia-se na pretensão racional de construir uma moralidade “científica”, apoiada no consenso e na imposição de ideais abstratos e não na praxe e na vivência circunstanciada, caso a caso, das virtudes concretas, que sempre podem ser realizadas e exercidas de formas múltiplas e diferentes(8) . E, inclusive, por força da contingência das circunstâncias, mesmo que bem intencionadas, podem dar errado ou, até, podem não ser sequer realizadas.
No capítulo XXI da Primeira Parte, onde se narra a aventura do Elmo de Mambrino, o Quixote deixa ver como seria uma sociedade construída a partir de um modelo social perfeito. Tudo –ou seja, as decisões, as condutas, as escolhas- já estaria previamente previsto, de acordo com uma apurada “engenharia social” que levaria, necessariamente, todos os membros da sociedade à sua perfeição: “…e assim que vir o cavaleiro, [o rei] conhecendo-o pelas armas ou pela empresa do escudo, forçosamente há de dizer: “Eia! Sus! Saiam meus cavaleiros, quantos em minha corte são, a receber a flor da cavalaria que ali vem”; à qual ordem sairão todos, e ele descerá meia escada (…) e o levará pela mão ao aposento da senhora rainha, onde o cavaleiro a achará com a infanta sua filha, que há de ser uma das mais formosas e completas donzelas (…). Sucederá logo após tudo isso pôr ela os olhos no cavaleiro, e ele nela os seus, e cada um parecerá ao outro coisa mais divina que humana; e sem saberem como nem como não, hão de ficar presos na insolúvel rede amorosa, e com grande opressão de suas almas, por não saberem como se hão de falar e descobrir as suas ânsias e sentimentos…”(9) .
Tudo se encontra elaborado com uma perfeição matemática ou, se quisermos, geométrica. As coisas devem acontecer assim, porque assim é que foi previsto. O Quixote é um cavaleiro andante, e a dama do castelo, uma princesa. A partir dessas premissas, tudo o mais é consequência. O mundo tornou-se uma idéia. A realidade é recriada conforme os conceitos de “cavaleiro”e “dama” ou, se quisermos, conforme os conceitos de “esquerda” e “direita”, “progressista”e “conservador”, “explorador” e “explorado”. O Projeto da Modernidade é um projeto de futuro, revestido no poder mágico da “utopia”, baseado nos princípios da racionalidade e que nos prometeu a felicidade futura numa sociedade perfeita, mesmo que para isso seja necessário, como advertia Ítalo Calvino, constranger a realidade e fazê-la entrar nos moldes do modelo: “(…) O modelo é por definição aquele em que não há nada a modificar, aquele que funciona com perfeição; ao passo que a realidade, vemos bem que ela não funciona e que se esfrangalha por todos os lados; portanto, resta apenas obrigá-la a adquirir a forma do modelo, por bem ou por mal”(10) .

A vida a partir dos princípios da razão
O começo da II Parte do Quixote parece-me ser ilustrativo do projeto da Modernidade: construir uma sociedade o mais perfeita possível por meio de uma ordenação racional da vida.
No Prólogo, Cervantes narra o conto de um louco, cuja loucura consistia numa simples questão de palavras e uso de conceitos. Bastava, para o louco, mudar o conceito que a realidade –no caso, uma determinada raça de cachorro- também mudava: “Havia em Córdoba outro doido, que tinha por costume trazer à cabeça um pedaço de mármore ou um pedregulho não muito ligeiro e, em topando algum cão descuidado, aproximava-se e deixava cair o peso em cima dele (…) Sucedeu, pois, que entre os cães a que fez isto, foi um deles o cão de um chapeleiro, que o estimava muito. Atirou-lhe uma pedra, deu-lhe na cabeça, desatou a ganir o cão moído, viu-o e sentiu-o o dono; agarrou numa vara de medição, veio ter com o doido, e não lhe deixou uma costela sã, e a cada paulada que lhe dava, dizia:
– Ah! Ladrão! Ah! Perro! Pois não viste, cruel, que o meu cão era podengo?
E, repetindo-lhe o nome de “podengo”muitas vezes, largou o louco, depois de lhe ter posto os ossos num feixe. Escarmentou-se e retirou-se o doido, e em mais de um mês não saiu à praça; e ao cabo desse tempo voltou com a mesma invenção e com maior carga. Chegava-se aos cães, olhava fito para eles por muito tempo, e sem querer nem se atrever a descarregar a pedra, dizia:
– Este é podengo! Cautela!
E efetivamente, quantos cães topava, ainda que fossem alões ou gozos, dizia que eram podengos; e nunca mais disparou o pedregulho”(11) .
A Modernidade, seguindo a trilha cartesiana, construiu um projeto e um modelo de sociedade, difundido e propagado posteriormente pelo Iluminismo, cuja principal armadilha consistiu em hipostasiar os conceitos, criar, a partir de categorias mentais existentes apenas enquanto “constructos” ou “objetos” da mente, em realidades físicas que, embora inexistentes, carregavam a força e o sonho da utopia moderna. Dessa forma, a Modernidade garantiu aos membros da sociedade que seria possível construir um mundo melhor e completamente diferente do mundo oferecido pela sociedade tradicional.
Não é outro o Projeto de Dom Quixote. No capítulo I da Segunda Parte, depois de mais uma história sobre um outro louco, desta vez de Sevilla, contada pelo barbeiro, o Quixote pronuncia, parece-me que por primeira vez, o seu próprio projeto: “Eu, senhor barbeiro, (…) só me canso para fazer perceber ao mundo o erro em que labora, não renovando os tempos em que a ordem da cavalaria campeava em toda a pompa; mas não é merecedora a nossa depravada idade de gozar tantos bens como o que gozaram os séculos em que os cavaleiros andantes tomaram ao seu cargo e puseram aos ombros a defesa dos reinos, o amparo das donzelas, o socorro dos órfãos e pupilos, o castigo dos soberbos, e o prêmio dos humildes (…) agora já triunfa a preguiça da diligência, o vício da virtude, a ociosidade do trabalho, a arrogância da valentia, e a teoria da prática das armas, que só brilharam e resplandeceram nas idades de ouro e nos cavaleiros andantes…”(12) .
Trata-se, portanto, de uma reforma moral, não apenas das pessoas, mas de toda a sociedade, a partir de um plano prévio, de um modelo perfeito. Perfeito no sentido de acabado, moralmente bom e o único possível. O fato de esse modelo estar centrado na cavalaria em nada muda o seu paralelismo com o Projeto moderno:
– convencer o mundo do erro em que se encontra;
– reformar o mundo com os valores e as virtudes racionais (diríamos, republicanas)
– porque esse modelo é o único possível contra os vícios e os erros que tomaram conta da sociedade atual.
Cervantes serve-se do anacronismo do modelo para criar a perplexidade no leitor –como seria possível melhorar uma sociedade futura com um modelo antigo?- e deixar patente a loucura quixotesca. Mas –poderemos perguntar-nos- se o Quixote é um louco com tamanha pretensão, por que não pensar o mesmo de alguém que defende um Projeto que pretende construir uma nova sociedade a partir de uma visão em que a ciência, o progresso e a tecnologia, num avanço permanente e continuamente progressivo, tornarão os homens mais justos, mais felizes e mais completamente realizados?

A Modernidade e o seu mito de Mambrino
Na verdade, o grande trunfo da Modernidade foi ter podido escrever uma lenda de si própria como se fosse história(13) . Desqualificando o mito como algo do passado “irracional”e “acientífico”, construiu uma profecia de si mesma, à que denominou de “utopia”, catalisando assim todos os sonhos e esforços da sociedade moderna. Uma vez definida qual seria a sociedade à que gostaríamos de chegar (o lugar da liberdade, da igualdade e da fraternidade) bastava apenas que o Estado aplicasse os meios necessários (aquela “razão instrumental” defendida po Weber) para que, num progresso contínuo, mais dia ou menos dias todos pudêssemos desfrutar da felicidade futura. A lógica (as razões necessárias e estruturantes da realidade) construiria a própria vida social, a partir de um consenso (pacto social) entre todos os cidadãos.
Quando Dom Quixote estava realizando seus sacrifícios e penitências em “Sierra Morena” em prol do amor de Dulcinéia, no capítulo XXV da Primeira Parte, explicava a um cético Sancho Panza, como era –como devia ser, posto que nenhum deles a vira antes- a formosa dama de El Toboso:
– “…Segundo isso, baste-me a mim também pensar e crer que a boa da Aldonça Lourenço é formosa e honesta. Lá a sua linhagem importa pouco; não há de ir tirar-lhe as inquirições para dar-lhe algum hábito; para mim faço de conta que é a mais alta princesa do mundo. Porque hás de saber, Sancho, se não o sabes, que há duas coisas só que mais que todas as outras incitam amar: são a formosura e a boa fama; e amas estas coisas são em Dulcinéia extremadas, porque em lindeza nenhuma a iguala, e em boa nomeada poucas lhe chegam; e, para acabar com isto, imagino eu que tudo que te digo é assim, sem um til de mais nem de menos; pinto-a na fantasia como a desejo, assim nas graças como no respeito…”(14) .
A lógica do Projeto da Modernidade é uma lógica perversa, porque uma vez definidas as suas premissas –o sonho, a utopia- tudo será visto a partir delas. Basta “pensar” como deve ser para que “tudo o que se imagina” seja assim como foi imaginado. E quando isso não acontecer, o problema nunca estará no projeto –que por definição é perfeito, como lembrava Calvino- mas nessa realidade arcaica, complexa e conservadora que se nega a seguir o curso dos acontecimentos, porque, como bem explicava Dom Quixote a Sancho naquelas serras, sempre parecerá para alguns que o sonho e a utopia moderna é um desatino, mas isso será por causa do curto entendimento que essas pessoas, como o coitado do Sancho, têm: “Olha, Sancho, pelo mesmo que tu me juraste há pouco te rejuro eu que tens o mais curto entendimento que nunca teve, nem tem, escudeiro do mundo. Pois é possível que, andando comigo há tanto tempo, ainda não tenhas reconhecido que todas as coisas dos cavaleiros andantes que parecem quimeras, tolices e desatinos, são pelo contrário realidades?”(15) .
Se o homem se torna senhor e agente da história, o que teremos, na verdade, nunca será a realidade, mas a projeção das nosas estruturas mentais, das nossas representações, dos nossos sonhos –utopias- sobre uma realidade amorfa que passa a conformar-se de acordo com a vontade racional do homem. A verdade, para o Projeto moderno, passaria a ser vista como “um conceito feito para aprisionar as pessoas em crenças e deter sua autonomia”(16) . O homem moderno é o próprio construtor da história, da realidade e, consequentemente, da sua verdade. No assim chamado mundo pós-moderno, encontramo-nos perante um verdadeiro “efeito de Mambrino”:
– “…se não me engano, aí vem caminhando para nós um homem que traz na cabeça o Elmo de Mambrino…
– olhe Vossa Mercê bem o que diz, e melhor o que faz –respondeu Sancho- (…) e talvez desse eu tais razões que Vossa Mercê veria que se enganava no que diz.
– como enganar-me no que digo, traiçoeiro escrupulizador?! –exclamou Dom Quixote- dize-me: não vês aquele cavaleiro que vem para nós sobre um cavalo ruço rodado, e traz na cabeça um elmo de ouro?
– O que eu vejo –respondeu Sancho- não é senão um homem escarranchado num asno pardo, cor do meu, e que traz na cabeça uma coisa que reluz.
– Pois “essa coisa que reluz”é que é o Elmo de Mambrino –respondeu Dom Quixote…”(17) .
Um “efeito de Mambrino” que teima em afirmar que o imaginado, o pensado, e o construído mentalmente é real, e que é capaz de “dar-lhe” vida e existência por meio da elaboração de uma categoria ou conceito, porque “aquela coisa que reluz” tem um nome. E quem nomeia, cria e domina a realidade(18) . Afinal, como o próprio narrador da história do Quixote nos explica, o cavaleiro da Triste Figura “tinha isso para si: quantas coisas via, logo pelo ar as acomodava às suas desvairadas cavalarias e descaminhados sonhos”(19) .

Gulliver e o positivismo
O ponto de partida da obra de Swift é o mesmo que o de Cervantes. A sociedade está corrompida, o mal triunfa e a justiça nunca se realiza. É no país dos gigantes, em Brobdingnag, que Gulliver começa a perceber que a natureza humana pode degenerar facilmente se não for bem educada e, mais, Gulliver percebe como, de fato, o homem é um ser cuja natureza está mal aparelhada para enfrentar a vida: “Examinei muitos dos seus livros, em especial os de história e moral (…) Trata o livro da fraqueza do espírito humano, e é pouco apreciado, a não ser pelas mulheres e o vulgo. Sem embargo, tive a curiosidade de saber o que poderia dizer sobre tal assunto um autor desse país. Versa o escritor sobre todos os tópicos costumeiros dos moralistas europeus, mostrando ‘quão diminuto, indefeso e desprezível animal é o homem em sua própria natureza (…) acrescentava que a natureza degenerara nestas últimas épocas decadentes do mundo e só podia agora produzir pequenas criaturas abortivas em comparação com os tempos antigos” (p. 155).
Mas nem por isso os gigantes são pessoas desanimadas ou sem um projeto social. Eles pretendiam dar todo o destaque à matemática “que é inteiramente aplicada ao que pode ser útil na vida, ao progresso da agricultura e de todas as artes mecânicas (…) mas de idéias, entidades, abstrações e trascendências, nunca lhes pude enfiar na cabeça a menor concepção” (p. 154). Encontramo-nos com uma sociedade perfeitamente cartesiana, onde a matemática e a geometria são as bases de qualquer conhecimento e onde o critério para a vida social é a utilidade e o progresso. Tudo o que não venha a contribuir pra essas metas passa a ser descartado. Mas, para que esse modelo social fosse implementado e tivesse sucesso era preciso transformar a moral num código de condutas. Código que, por sua vez, teria de ser o mais claro possível e, para isso, “nenhuma lei nesse país deve exceder em palavras o número de letras do seu alfabeto, que são apenas 22. Em realidade, contudo, poucas chegam a tanto. São expressas nos termos mais claros e simples, de que a gente não é suficientemente perspicaz para descobrir mais de uma interpretação” (p. 154).
Os projetos sociais de meados do século XVII
Na cidade de Lagado, Gulliver visita a Academia de Projetistas, nome bastante significativo, onde se defronta com uma infinidade de projetos, alguns deles de conteúdo político e social, que, no entender dos seus autores, resolveriam definitivamente quaisquer problemas que surgissem na vida política.
Um deles dizia respeito aos projetos de leis apresentados pelos representantes do povo: “todo senador do grande conselho de Estado de um país, depois de haver apresentado a sua opinião e o seu arrazoado em sua defesa, deveria ser obrigado a votar contra ela; porque, se isso fosse feito, redundaria infalivelmente no bem público” (p. 217). Outro pretendia dirimir as controvérsias entre os diferentes partidos políticos: “Quando se mostravam violentos os partidos políticos tinha ele um invento maravilhoso para reconciliá-los. O método é o seguinte: tomamos cem chefes de cada partido; dispomo-los aos pares, de modo que fiquem juntos aqueles cujas cabeças são o mais possível do mesmo tamanho; em seguida, fazemos que dois bons operadores serrem o occipício de cada par ao mesmo tempo, por maneira que os cérebros possam ser divididos igualmente. Trocamos depois os occipícios serrados, aplicando cada um à cabeça do adversário político. Parece tratar-se, com efeito, de um trabalho que exige alguma precisão, mas o professor assegurou-nos que, executado com habilidade, a cura é infalível” (p. 217).
Um terceiro, ainda, tratava sobre a espinhosa questão dos impostos: “o método mais justo seria o de lançar impostos sobre o vício e a insensatez; e que a importância deveria ser fixada, para cada indivíduo, da maneira mais reta, por um júri composto de vizinhos seus (…)ou taxar as qualidades do corpo e do espírito em virtude das quais se estimam os homens; sendo a cota maior ou menos segundo os graus de excelência, devendo ser confiada a sua determinação ao arbítrio de cada contribuinte” (p. 218).
O ridículo das soluções e idéias propostas remete-nos inevitavelmente a um questionamento sobre o sentido e eficácia dos projetos políticos. Como falamos, é com a Modernidade que nasce de forma marcante a idéia da política como uma construção humana a partir de uma idéia pré-concebida ou pré-elaborada ou, se quisermos expressá-lo de uma outra forma, como uma construção artificial da sociedade política. Hobbes, em meados do século XVII, inaugurará a discussão sobre o Pacto social como um acordo de vontades entre todos os indivíduos da sociedade, através do qual, esta se converte em Estado, e aqueles em cidadãos.
Ao escrever o seu Leviatã, Hobbes partiu da premissa de que seria possível construir uma ciência exata e verdadeira da justiça e da política(20) . E para isso considerava que a Retórica e o debate dos diferentes pontos de vista para encontrar o justo era precisamente o que levava o Estado à ruína e às guerras(21) .
A proposta hobbesiana era a de estabelecer umas regras através das quais se pudesse chegar a um “raciocínio infalível”: “o único método adequado a seguir, se não quisermos deixar margem alguma para disputas em contrário, é começar pelas definições e pela eliminação das ambigüidades”(22) .
A partir dessas premissas, as suas teses estabelecidas no Leviatã provocariam uma profunda alteração na cosmovisão política e jurídica na tarefa de encontrar o justo na sociedade. Tudo seria feito a partir de conceitos e categorias previamente definidas. O justo e o injusto não diriam mais respeito a uma proporção adequada encontrada nas circunstâncias do real, mas a uma definição legal realizada pelo soberano, ou, se se quiser, pela Assembléia. A lei seria quem definiria o que se poderia e não se poderia fazer e aquilo que for definido será denominado de direito(23) . A função dos juristas –não mais jurisprudentes- seria a de realizar uma tarefa lógico-dedutiva, sem necessidade de saber se seriam homens virtuosos ou não. Bastaria com deduzir da lei geral qual seria a conduta certa ou errada.
Contudo, Swift descobre um problema de fundo nessa nova visão moderna. A sua crítica desenvolve-se dentro da questão da linguagem. Falando na Academia de Projetistas, Gulliver aponta para a inconsistência de qualquer lei como reguladora única da conduta certa, visto que todo texto pode ser interpretado de acordo com os interesses de quem detém o Poder: “esses documentos são entregues a um grupo de artistas habilíssimos no descobrir o significado misterioso das palavras, sílabas e letras: podem, por exemplo, descobrir que latrina significa conselho privado; rebanho de gansos, senado; patíbulo, secretário de Estado; urinol, comissão de fidalgos; peneira, dama do paço; vassoura, revolução; ratoeira, emprego; poço sem fundo, tesouro; sentina, corte; barrete de bobo, favorito; gaita quebrada, tribunal de justiça; tonel vazio, general; ferida supurada, administração” (p. 220).
De certa forma, tal como fará no século seguinte Lewis Carrol com a sua Alice através do espelho, como disse Humpty Dumpty, as palavras não significam a realidade, mas “significam aquilo que eu quero que signifiquem” e, por isso, a questão política fundamental, na Segunda Modernidade, é: “quem tem o Poder?”(24) .

A proposta iluminista de Gulliver
Para resolver esse impasse, Swift fará que Gulliver tome conhecimento do país dos yahoos e dos houyhnhnms. A sua estadia durante três anos entre os houyhnhnms permitiu que Gulliver reconhecesse a existência de uma natureza que possibilitava que todos os racionais tivessem “uma propensão geral a todas as virtudes” e desconhecessem “a idéia do mal numa criatura racional”. De fato, todos os houyhnhnms tinham uma máxima, que mais tarde seria desenvolvida pelo Iluminismo: “cultivar a Razão e serem por ela inteiramente governados” (p. 308).
De certa forma, podemos afirmar que Swift, através de Gulliver, está dialogando com Hobbes e resolvendo, através de uma Razão que se tornará universal, os problemas decorrentes da divergência de opiniões, já que “para eles a razão não é um ponto problemático, como entre nós, onde os homens podem defender com plausibilidade os dois lados de uma questão, senão que lhes infunde uma convicção imediata como há de fazê-lo sempre que a não confundam, obscureçam ou desfigurem paixões e interesses. Lembra-me que só com muita dificuldade alcancei dar a entender a meu amo o significado da palavra “opinião”, ou de que maneira pode ser controvertido um ponto qualquer; porque a razão nos ensina a afirmar ou negar apenas o de que estamos certos e não podemos nem uma coisa nem outra quando o problema ultrapassa os nossos conhecimentos. De sorte que as controvérsias, porfias, disputas e obstinações são males desconhecidos entre os Houyhnhnms” (p. 308).
Estamos às portas de uma nova forma de entender o mundo e a realidade. De acordo com a tradição clássica, como a defendida por Aristóteles nos Tópicos e na Retórica, a realidade podia ser dita a partir de diferentes pontos de vista. Isso fundamentava o lugar da opinião, de maneira que para ter uma compreensão o mais abrangente possível da realidade fosse necessário a arte da retórica, onde se procurava convencer, através do raciocínio e da argumentação, de que uma opinião ou várias opiniões eram mais convenientes do que outras. Convenientes no sentido de “convir” com a realidade e não no sentido de aproveitar mais ou menos.
Agora, tratava-se de inaugurar uma nova forma de raciocínio, onde haveria apenas um único ponto de vista, o assim denominado “racional”, de maneira que todos os homens, desde que usassem bem da sua razão, como já advertira John Locke(25) , poderiam chegar a ser iluminados pelos “primeiros princípios da honra, da justiça, da verdade, da temperança, do espírito público, da fortaleza, da caridade, da amizade, da benevolência e da fidelidade. Virtudes essas cujos nomes ainda se conservam entre nós, na maioria das línguas, e se encontram em muitos autores, assim antigos como modernos” (p. 338).
Voltamos, portanto, ao ponto de partida cartesiano, “para agir bem, basta conhecer bem”. É como se a Razão fosse não apenas uma luz do entendimento, mas uma força para a vontade e os sentimentos e as paixões. O homem racional, ou melhor, o homem racionalista, iluminado pela razão, veria claramente o sentido e a essência das virtudes e, por força desse saber, tornar-se-ia virtuoso como os houyhnhnms.
E Gulliver pretendia que, como solução para os problemas da Europa, os habitantes do país dos houyhnhnms “fossem capazes, ou a isso estivessem dispostos, de mandar um número suficiente de seus habitantes para civilizar a Europa”. Uma proposta que será posta em prática poucos anos depois através do Iluminismo e da Revolução Francesa(26) .

Referências bibliográficas
(*) Este artigo faz parte de um Projeto financiado pela FAPESP, a quem agradeço o auxílio.
(1) SWIFT, Jonathan, As viagens de Gulliver, Abril Cultural, São Paulo, 1973.
(2) Nesse sentido é interessante o ensaio de Mario Vargas Llosa, “Uma novela para el siglo XXI”, publicado na edição do IV Centenário, Real Academia Española, 2004.
(3) Penso que Cervantes, ao escolher como meta da sociedade futura um passado glorioso e inexistente (“Ditosa idade e afortunados séculos aqueles a que os antigos puseram o nome de dourados (…) porque então se ignoravam as palavras “teu”e “meu”! Tudo era comum naquela santa idade (…) Com a verdade e a lhaneza não se tinham ainda misturado a fraude, o engano e a malícia. A justiça continha-se nos seus limites próprios, sem que ousassem turbá-la nem ofendê-la o favor e o interesse, que tanto hoje a enxovalham, perturbam e perseguem. Ainda não se tinha metido em cabeça de juiz o julgar por arbítrio, porque ainda não havia nem julgadores, nem pessoas para serem julgadas…”, Livro I, Cap. XI) está procurando criar a perplexidade e provocar o ceticismo e o riso sacástico nos seus leitores que se vêem às voltas com os novos reformadores racionalistas da sociedade do XVII.
(4) Utilizo a edição do IV Centenário, da Real Academia Española, Madrid, 2004 e, para a tradução, a de Viscondes de Castilho e Azevedo, Abril, São Paulo, 1978.
(5) Idem, Primeira Parte, cap. I, p. 30.
(6) Idem, Segunda Parte, cap. XXXII, p. 440. As itálicas são minhas. Com isso quero ressaltar a idéia do modelo prévio, da conduta categórica previamente definida. O Quixote age de uma forma determinada não porque parece ser o mais oportuno e conveniente numa situação concreta e determinada, mas “porque é forçoso”que seja assim, já que se trata de agir como um cavaleiro andante. Enamora-se não porque a mulher amada seja desejada, mas “porque é forçoso”que assim seja. Todos os seus atos são sempre bons, de maneira que nunca o Quixote se encontrará com o problema da contingência do humano. Ou melhor, quando se encontra, porque é isso que lhe acontece continuamente, nunca conseguirá enxergá-lo.
(7) Sobre este ponto sigo as observações de Michael Oakeshott, El racionalismo em la política y otros ensayos, FCE, México, principalmente o capítulo A Torre de Babel.
(8) OAKESHOTT, M., op. cit., p. 445.
(9) Chama a atenção que não apenas as relações públicas e ritualistas estejam previstas, mas as relações mais íntimas e privadas, como são as amorosas. A leitura do parágrafo, bastante extenso por sinal – três páginas, na edição da Real Academia- parece-me ter como finalidade provocar no leitor o convencimento de que todas as condutas, tanto públicas como privadas, só podem ser daquela maneira determinada: o rei dirá forçosamente uma frase, descerá necessariamente meia escada, o cavaleiro encontrará inevitavelmente a princesa no quarto da sua mãe…..( coloquei em itálicas os termos que me parecem expressam bem essa necessidade de um único tipo de conduta certo e, consequentemente, a impossibilidade da contingência, de que as coisas se passam de um outra forma possível), contudo, o leitor bem sabe, por experiência, que nada tem por que ser assim necessariamente.
(10) CALVINO, Ítalo, Palomar, Companhia das Letras, São Paulo, 2000, p. 97.
(11) Prólogo ao Leitor, Segunda Parte, p. 313.
(12) Segunda Parte, capítulo I, p. 317-8.
(13) Sobre essa questão, veja-se a obra de PONDÉ, Luiz Felipe, Crítica e Profecia. A filosofia da religião em Dostoiévski, Editora 34, São Paulo, p. 169.
(14) Primeira Parte, capítulo XXV, p. 145.
(15) Idem, p. 141.
(16) PONDÉ, Luiz Felipe, op. cit.,p. 238.
(17) Primeira Parte, capítulo XXI, p. 115.
(18) Esse pensamento tem origem, no mundo ocidental, na tradição judaico-cristã, quando na narração de Adão e Eva, é Adão quem dá nome às coisas e, por isso, manifesta assim o seu domínio sobre elas. Não deixa de ser interessante que Daniel Defoe, em……., volte ao mesmo pensamento quando Robison Crusoe nomeia “Sexta Feira”, e ensina-lhe a chamá-lo de senhor.
(19) Primeira Parte, capítulo XXI, p. 115.
(20) SKINNER, Q., op. cit., p. 401.
(21) HOBBES, Leviatã, Abril, São Paulo, 1974, Livro II, cap. XXIX.
(22) SKINNER, Q., op. cit., p. 398.
(23) HOBBES, Leviatã, Livro I, cap. XIV.
(24) CARROLL, Lewis, Alice no país das maravilhas e através do espelho e o que Alice encontrou lá, Summus editorial, São Paulo, 1980, p. 196.
(25) LOCKE, J., Segundo Tratado sobre o Governo Civil, Abril, São Paulo, 1973, Cap. II, 6.
(26) KOSELLECK, Reinhardt. Crítica e crise. Uma contribuição à patogênese do mundo burguês, Eduerj-Contraponto, Rio de Janeiro, 1999.

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